Bruno Sodré: da periferia ao salão de beleza estrelado em São Paulo

É injusto se colocar como melhor do que o outro, quando na verdade não existe isso. É besteira cabeleireiro ter esse ego inflado, porque nenhum deles é exclusivo ou insubstituível.


Bruno Sodré
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Uma foto postada nas redes sociais viralizou ao mostrar um cabeleireiro em dois momentos da carreira: o início, numa garagem da periferia de São Paulo; e o atual, com uma equipe grande em frente à fachada de um salão de beleza sofisticado. Em ambos, quem aparece é Bruno Sodré, jovem empreendedor paulista que se tornou hairstylist estrelado após anos de muito trabalho.

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Nascido e criado no Capão Redondo, periferia da Zona Sul de São Paulo, Bruno começou a trabalhar no salão de uma tia no bairro, ainda na adolescência. A oportunidade era, até então, apenas um ganha-pão para a família de origem humilde. Porém, com o tempo ele percebeu o quanto poderia se sentir realizado na área da beleza.

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Depois de viajar para Portugal, com o intuito de trabalhar num salão lá, retornou ao Brasil com novos aprendizados na mala. Foi então que decidiu voar solo e inaugurou a primeira empreitada na garagem de casa, em meados de 2013. Lá permaneceu até se mudar para a região do Brooklin, onde hoje, num espaço muito mais amplo e refinado, atende mais de 200 clientes por mês, comprovando que o sucesso não fica apenas no Instagram. Depois da foto do “antes e depois” que rodou pela internet, o número chegou a dobrar. Além disso, recebeu várias mensagens de pessoas inspiradas e tocadas por sua história.

 

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Num momento de reflexão, ele escreveu no Facebook: “há quatro anos minha vida mudou por completo. Tudo que eu menos queria era ter uma empresa e foi exatamente o que a vida trouxe para mim. Ser responsável pela minha vida e também pela vida de outras, cuidar, zelar, aprender e evoluir. Isso vai além de ganhar dinheiro, se ganha conhecimento. E nisso não há valor material. Sou grato eternamente por tudo que me é oferecido. Pelas conquistas e pelas perdas também”.

Uma das técnicas desenvolvidas por Bruno, na base da experimentação e da especialização com outros profissionais, é o chamado “high contrast” (alto contraste), que mistura tons em mechas largas, iluminando os fios. Além disso, ele é especialista em deixar as madeixas louras, que são o que mais movimenta o salão atualmente.

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Como todo bom filho à casa torna, Bruno vai ao Capão Redondo com outro propósito: o de ensinar. Neste ano, fará seu primeiro workshop de mechas na ONG Libertários do Capão, para pessoas que precisam de incentivo e um bocado de inspiração. A instituição é dedicada à profissionalização e preparação de jovens e adultos para o mercado de trabalho.

Bem esclarecido, objetivo e sincero, ele divide com o Razões para Acreditar detalhes de sua trajetória que, assim como muitas outras, tem altos e baixos, erros e acertos.

– Você começou a carreira ainda adolescente, no salão de uma tia. Foi daí, na prática, que você descobriu seu talento? Como aflorou essa paixão pela área da beleza?

Eu fui perceber o que eu amo há cinco anos. Então dos 15 anos de carreira que eu tenho, demorei 10 anos para saber o que eu queria. Tive que trabalhar bastante essa descoberta, porque não sabia logo de cara o que gostaria de fazer.

– A periferia é um lugar muito propício para salões. Sempre tem muitos, que começam como você, com uma portinha. Quais eram seus principais desafios no início? 

Não tive esse desafio específico porque os moradores do Capão não eram o meu público. Eu comecei dentro da minha casa e não atendia as clientes do bairro. Elas sempre vinham de longe para fazer o cabelo comigo.

Na época, eu já era uma pessoa que cobrava um valor acima do que a maioria das pessoas da periferia cobram. Sempre valorizei bastante o meu trabalho e não abaixava o preço. Infelizmente na periferia é muito notório e comum a desvalorização do serviço. Às vezes o morador do bairro paga caro para um serviço no shopping, mas não paga para fazê-lo no vizinho.

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Não importa se o serviço é bom ou ruim, para ela faz mais sentido pagar caro no shopping de gente rica. Há esse mito de que na periferia tem que ser barato independente da qualidade. Isso sempre me impulsionou a manter o meu preço.

– Quando que você começou a ficar conhecido e ir atender em outras regiões além do Capão? Era indicação de amigas?

O boca a boca definitivamente é o melhor negócio. Depois que saí do Capão, sempre tive clientes por indicação.

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– Quando sua mãe foi para o Estados Unidos? Você ficou com vontade de ir pra lá?

Quando ela estava no Estados Unidos, cheguei a tirar passaporte para ir. Quase fui, fiquei morrendo de vontade de ir. Mas eu ainda estudava e chegamos a uma conclusão de que não era melhor eu ir, de que eu queria ficar. Eu era muito apegado aos meus amigos, à escola e acabei ficando para estudar.

– E como você foi parar em Portugal e o que deu errado?

Eu fui para abrir um salão lá, por causa da indicação de uma amiga, que conhecia uma pessoa, do Brasil porém de família portuguesa, interessada em investir. Como estava sem trabalhar na época e minha mãe morando no Estados Unidos, acabei sendo convencido com essa ideia. Chegando lá iríamos decidir tudo.

Por fim, muitas coisas aconteceram, ela acabou se desinteressando em me ajudar, eu não conhecia esse amigo dela e fiquei sem saber o que fazer. Precisava pagar minhas contas, acabei trabalhando em um salão de lá, que não rendeu muito também e tentei ir para Londres. Também não consegui! Aí minha mãe ficou sabendo e falou “volta para o Brasil agora!” (risos).

– Trabalhar em grandes salões mudou sua perspectiva sobre a profissão? 

Isso mudou completamente a minha perspectiva do que é ter um salão. Inclusive eu sempre recomendo, para quem é da periferia, que o ideal é começar pelos salões grandes, como assistente de cabeleireiro. Eles têm uma dinâmica muito bacana, de trabalhar com bastante gente, com vários outros profissionais.

Sempre reforço isso porque acho que te torna mais humilde, o fato de ter que lidar com as pessoas traz muita sabedoria. Tenho muita bagagem justamente por causa de ter trabalhado em salões maiores. Hoje acredito que tive uma base muito boa e que minhas conquistas até agora foram justamente porque eu vim de lugares que cresceram e que me fizeram crescer.

– Como foi empreender no seu próprio salão? Já tinha como investir? 

Sempre tive dinheiro para fazer o que eu fiz, então primeiro abri o salão na garagem da minha casa. Reformei, comprei tudo e comecei a trabalhar lá. Depois eu reformei um imóvel na rua da minha casa para continuar exercendo as minhas atividades, onde fiquei durante um ano. E o mesmo aconteceu quando vim para a região do Morumbi. Todos os anos fui melhorando a minha condição financeira.

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– Quantas horas por dia você trabalhava ou chegou a trabalhar?

Já cheguei a trabalhar mais de 12 horas. Teve uma vez que comecei a trabalhar às 8 horas da manhã e só parei às 2 horas do dia seguinte! Fiquei quase 24 horas no ar. Foi uma loucura. Marquei umas 15 clientes e arrumei todo mundo, na garagem da minha casa. Minha assistente, que ajudava nas escovas, foi embora meia noite e finalizei tudo sozinho. Foi barra!

– Suas técnicas e aprendizados são totalmente autoditadas? Foi tudo na base do YouTube mesmo?

As minhas técnicas vieram em partes da minha cabeça e outras eu aprendi do YouTube. Há 10 anos atrás não tinha muito tutorial, mas algumas informações sobre colorimetria acabei pegando lá sim. Mas boa parte do que sei hoje foi autoditada mesmo.

– Você começou a desenvolver suas próprias misturas de cores em casa. Como foi esse processo? Errou muito até acertar?

Esse processo de mistura de tons é recente, não é o que eu sempre fiz e foi por conta própria, na invenção mesmo. Colocando um tom no começo, um no meio e outro no fim, observando os resultados e os efeitos. Faz cerca de 1 ano e meio que temos a mistura de tons entre nossos serviços. Depois fiz uma especialização com o Romeu Felipe e isso aflorou mais ainda.

Cheguei a errar muito sim, muito, muitooooo! (risos). Infelizmente a profissão de cabeleireiro é assim mesmo, pode ter erros, igual a qualquer outro que exija o serviço direto. Até mesmo para um médio, que uma hora vai ter que fazer uma cirurgia sozinho e a situação fica nas mãos dele. Não tem jeito. A profissão é arriscada, não é pra qualquer um.

– Já chegou a estragar seu próprio cabelo com suas invenções?

Muitas vezes! A vida inteira eu passei estragando o meu cabelo. Porém, mais acertando do que estragando.

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– O que você faz quando a cliente não gostou do resultado? Você se arrepende de alguma coisa? 

É hipernormal uma cliente não gostar do cabelo, atendo mais de 200 cabelos por mês e não vou agradar tudo isso de gente por mês. Imagina, seria uma meta incrível, um feedback impressionante. Pensa, qual empresa consegue ter 100% de satisfação de seus clientes? Nenhuma. Então, normal…a cliente que não gosta vem e tudo depende da reclamação.
Se for um erro do salão, a gente corrige. Se for um erro de escolha, ela tem que pagar para arrumar. Por exemplo, em caso de cor mais escura ou tom que não estava de acordo com a expectativa dela, não arcamos com isso. Existe uma diferença nos casos.

Todo o trabalho tem sua proporção de erros. Acho que nunca fiz nada do que eu não sabia fazer. As próprias clientes que reclamam também precisam ter essa humildade de reconhecer que errar, infelizmente, é normal. Então não me arrependo dos erros porque acho que fazem parte.

– Qual foi a sensação de deixar a garagem de casa para ir a um espaço exclusivamente para o salão? Era o grande sonho da sua vida?

Tenho um mix de sensações. Quando aluguei aqui, teve cinco meses de reforma e foi tudo muito picotado nesse processo. Quando olho aquela foto, aquele menino na porta do salão, tenho uma descarga enorme de emoções.
Mas ao mesmo tempo, pra mim hoje, é normal porque tudo foi feito aos poucos. Não foi aquela fama da noite para o dia. Se meu pai fosse muito rico e tivesse me dado isso aqui, se fosse algo que ganhei, teria talvez esse deslumbre maior.

Como tudo foi conquistado com muito suor, acho que tem até o efeito contrário, até amortecedor. Sou bem feliz, muito grato com o que tenho, mas não vejo como um grande feito da minha vida. Mas aquela foto é incrível porque remete bem ao momento da primeira maquininha de cabelo chegando na minha casa e hoje eu ter uma equipe de mais de 10 funcionários.

– Qual é o grande diferencial do seu trabalho? O que você tem que ninguém tem?

O que eu tenho é o que a maioria tem ou deveria ter, é a força de vontade. Sinceramente, não tenho nada diferente de ninguém. Não gosto de me colocar como uma unidade, uma pessoa exclusiva, porque não sou. Acho que faço um trabalho diferenciado, mas cada profissional é muito peculiar.

É injusto se colocar como melhor do que o outro, quando na verdade não existe isso. É besteira cabeleireiro ter esse ego inflado, porque nenhum deles é exclusivo ou insubstituível.

O que eu tenho é criatividade, que talvez faça com que eu me destaque. Sou criativo na forma de analisar o cabelo, de abordar as pessoas, de fazer, de vender, de finalizar e até na hora de postar uma foto. Essa é a chave que abre mais cadeados na sua vida.

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Fotos: arquivo pessoal/Bruno Sodré

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