O que podemos aprender com o homem que perdoou o assassino do próprio pai

Steve Saint tinha apenas 5 quando seu pai, Nate, um missionário cristão que trabalha no Equador, foi morto por um grupo da tribo Waodani, que esperou ele e seus quatro colegas americanos que se preparavam para levar a mensagem de Jesus para os habitantes da remota selva amazônica, cujo ciclo interminável de mortes por vingança os tinha levado à beira da extinção. Essa triste história tem 51 anos.

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“Meu pai era meu herói”, diz Saint por telefone, de Nova York, de onde dá entrevistas para promover o filme “End of the Spear”, (No Brasil ganhou o nome “Na Ponta da Lança”) longa baseado nos 1.956 assassinatos ocorridos na região e suas consequências.

“Todos os meus sonhos quando garotinho giravam em torno dele. Eu queria ser como ele”, continua Saint descrevendo suas emoções. “Ainda me lembro desse sentimento de que tudo mudou. Eu pensei que não havia mais pelo que viver. A vida tinha acabado”.

Mas Saint seguiu em frente, e hoje ele diz que está muito parecido com seu pai e até faz as cenas como piloto acrobático para o filme.

Ele que foi levado ainda muito menino para viver entre os Waodani, não fazia ideia, até mais tarde, de que um dos membros e que dormia no quarto ao lado era um dos assassinos de seu pai: Mincaye (chamado Mincayani no filme).

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Steve Saint as a boy with one of the Waodani warriors, Kimo. Credit tk
Steve Saint ainda garoto e um dos guerreiros Waodani, Kimo. Crédito tk

Alguns questionaram porque ele nunca procurou saber e ele explica que na cultura deles não se faz esse tipo de pergunta, pois se o faz quer dizer apenas que está tramando vingança.

Porém, foi inevitável que Saint viesse a descobrir da participação de Mincaye na morte de seu pai, mas nessa altura Saint diz: “Eu o amava e sua família e seu povo, e eu sou parte deles.”

“Eu sei que parece estranho”, diz ele lembrando um comentário de um escritor norte-americano há alguns anos. “Ele disse, ‘eu posso até perdoá-lo na minha cabeça, mas não teria nada a ver com ele mais. O fato de vocês serem amigos, família, de que você o ama que é mórbido.'”

Sim, Saint e o assassino de seu pai são amigos. Supere.

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Eles são vizinhos parte do ano, pois Saint mantém uma casa na aldeia Waodani, onde mora quando não está viajando ou trabalhando na Flórida, na “People’s Technology and Education Center”, uma organização fundada em 1997 para levar consultórios odontológicos móveis e outras tecnologias para os povos primitivos.

E os dois fazem diversas coisas no estilo pai e filho juntos. E essa não é a parte estranha.

stevewao2

O que é estranho é ouvir a maneira quase casual que Saint fala sobre matar, ou pelo menos da maneira como relata o ocorrido entre os Waodani, mencionando de modo aparentemente sem constrangimento que, apesar, de uma queda vertiginosa no número de homicídios, ainda existem assassinatos “relativamente isolados”. “Havia uma mulher Waodani”, diz ele. “Ela tinha vivido no exterior e havia voltado, e ela estava fazendo pose, tentando chamar a atenção dos jovens, agindo promiscuamente E as pessoas acharam que era inaceitável. Então, finalmente, meu amigo espetou ela.”

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Tão bárbaro quanto esse comportamento pode parecer aos nossos ouvidos, Saint aponta que os caminhos do mundo moderno são igualmente incompreensíveis para Mincaye, que por exemplo fica consternado com os documentários no History Channel sobre a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto.

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“Quando Mincaye ouviu o que tinha acontecido em Columbine ele olhou para mim e disse: ‘Você quer dizer que as pessoas que são tão inteligentes que podem fazer pequenas caixas que falam em longas distâncias, que podem fazer aviões pesados voar, que tem medicamentos que fazem doenças, como a febre, ir embora – que podem fazer todas essas coisas – você está me dizendo que eles vivem com raiva e ódio e matam por nenhuma razão?”

Com certeza uma questão e história de dar nó na cabeça, no que acreditamos e pensamos. É como falam, nunca sabemos como vai ser com a gente até que aconteça.

Veja o trailer do filme originado dessa história extraordinária:

Fonte: The Washington Post

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