Por que permito que meu filho adolescente transe em casa?

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A Sabrina Bittencourt nos presenteou semana passada com um texto falando sobre como aprendeu a ser uma pessoa melhor com a sua faxineira – relembre aqui. Desta vez, a temática que ela abordou foi educação sexual para jovens e dando como exemplo sua relação com o filho adolescente.

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Engana-se quem pensa que falar sobre o assunto incentiva o sexo precoce: dados da OMS apontam que, quanto menos informação, mais precocemente se inicia a vida sexual. Além disso, a informação ainda evita casos de violência sexual. [via].

Leia o texto na íntegra*, com autorização e incentivo do filho e sua namorada, com conhecimento dos pais dela:

“Tenho 36 anos e fui criada dentro de um sistema de crenças religiosas extremamente conservadora uma boa parte da minha vida. Onde um dos pilares é “castidade até o casamento/monogamia/casamento para a eternidade”. Não cumpri nenhuma das três coisas esperadas pelos meus pais e líderes de dita religião, portanto, constantemente recebia os castigos ou “oportunidade de arrependimento e correção de conduta” desde a adolescência.

No dia a dia das minhas descobertas sexuais com namorados e namoradas, enquanto adolescente, era comum na minha geração a falta de tempo de qualidade para criar intimidade durante o sexo, o que empobrecia as experiências e não contribuía para o desenvolvimento de uma saudável autoestima.

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Sei que muitas mulheres da minha geração, hoje mães de adolescentes, também passaram por isso: transar escondido, ser a rainha da rapidinha nas escadas do prédio, ter pouca grana para ir em motel e sempre na promoção de 1 hora, trepadinha no carro velho do pai do namorado.

Refleti o quanto esta falta de espaço, tempo, respeito à minha sexualidade e à expressão dela influenciou ao aceitar qualquer migalha afetiva e sexual vinda de outras pessoas, até a cristalização de conceitos de que “é assim e pronto”.

Decidi conscientemente que no início da vida sexual dos meus filhos, para ajudar minimamente em terminar com este ciclo vicioso de falta de cuidado – ao menos entre os jovens próximos que se aproximarão deles – , eu facilitaria ao máximo seus encontros, num lugar limpo, seguro, acolhedor e empático.

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Daí pra ser “perfeito” na minha mente, eu projetava uma cena idílica de tomar café da manhã com as namoradas e namorados, ficantes, rolos, crushs dos meus filhos, deixar camisinhas de todos os tipos, sabores, presentear com kits de apetrechos e brinquedinhos sexuais para se divertirem.

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Até que, este dia finalmente chegou e com ela, a realidade surpreendentemente imperfeita.

Meu filho mais velho, com 15 anos, anunciou: “mãe, eu vou trazer a B. para casa e possivelmente vamos passar a manhã inteira transando no meu quarto, tudo bem? Por favor, se mantenha invisível para não assustar a menina!”
Mamãe eufóricaaaa! “Sim??? Claro filho, ela é suuuuper bem-vinda! Brasileira? Quer brinquedinhos? Apetrechos? Flores no quarto? Luz especial? Café da manha na cama?”
E ele: “Mãe, relaxa. Já tenho tudo o que preciso, simplesmente deixe a gente à vontade e nos viramos bem. Eu vou fazer o almoço para ela e para você, mas se ela estiver tímida, deixa a garota pela-mor. Veja se o Rafa pode ficar com as crianças porque preciso me sentir relaxado e que eles não vão bater na porta!”

Fui pro meu quarto, mandei os filhos pequenos para a casa do pai, meu ex marido, vizinho, amigo e cúmplice da minha “primeira vez de invisibilidade materna”.
Liguei o som no último volume e passei a manhã toda trabalhando, cercada de snacks, bebida e alívio.

Havia uma distância imensa entre minhas expectativas cinematográficas de comunhão, trocas de saberes com a garota, poder ser a “mamis fofa e descolada”, ouvinte de suas confidências, ou seja, tudo o que eu gostaria que fizessem comigo na adolescência.

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Às 17h eles saíram do quarto definitivamente, pois o pai da B. veio buscá-la depois do trabalho. Nos esbarramos no corredor. Ela esboça um tímido “Nossa, tia! Fiquei até sem graça porque pensei que não ia te conhecer” e eu disparo “Venha sempre que quiser, seja bem-vinda na minha casa. Espero que meu filho tenha te tratado muito bem”. Ela sorriu para mim, linda! Olhou pra ele com cumplicidade.
Aquele sorriso representou todas as vezes que eu desejei ter tempo, ser acolhida e poder desenvolver intimidade na adolescência. Não ser vista como a “puta do rolê” pela comunidade religiosa e familiares.
Aquele sorriso dela foi curativo e reparador.

Meu filho me abraçou e agradeceu pela liberdade de ser ele mesmo. E disse pra ela “minha mãe é feminista, como você!”

À noite ele veio no meu quarto com um jantar delícia, contar sobre a experiencia do dia e dizer que era um dos dias mais felizes da vida dele! O quanto a B. é incrível, decidida, livre e que ele estava estudando novas técnicas de massagem…

Lágrimas escorreram do meu rosto e me senti grata pela experiência de ser invisível e desnecessária.

Ela 17, ele 15. Bem-vinda a evolução da espécie!”

*O texto foi originalmente publicado no site Cínicas.

Crédito de foto: Sabrina Bittencourt – Reprodução autorizada

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