Pesquisador cria ONG que preserva abelhas e se une à filha para levar esse conhecimento a escolas

Nem só de mel vivem as abelhas. Esses insetos polinizam 70% das culturas agrícolas que vão para o nosso prato e 85% das plantas existentes no planeta, que servem de abrigo ou alimento para outros animais. Sem abelhas, a segurança alimentar e nutricional da humanidade e a biodiversidade estão ameaçadas.

Pela importância na preservação da vida, a existência desses seres deveria ser protegida, mas está em risco: é cada vez maior a ocorrência de morte em massa de abelhas, causada por destruição ambiental, mudanças climáticas, poluição e, principalmente, o uso de agrotóxicos.

Bee or not to Bee?

Foi para ajudar a reverter esse cenário que o professor, pesquisador e especialista em genética de abelhas Lionel Segui Gonçalves, nascido no Paraná em 1940 e estabelecido no interior de São Paulo 23 anos depois, teve a ideia de criar, em 2012, a iniciativa Bee or Not to Be?, em parceria com o Centro Tecnológico de Apicultura e Meliponicultura do Rio Grande do Norte. O objetivo era alertar a população sobre a importância da proteção dos polinizadores, em especial as abelhas.

Em 2017, o projeto se tornou uma ONG, produzindo e divulgando conhecimento especializado ligado à causa, com projetos, consultoria, pesquisas e eventos no Brasil e na América Latina. Os colaboradores, que vão de cientistas e educadores a amantes da natureza, apicultores e meliponicultores, que são os criadores das abelhas sem ferrão, são todos voluntários e atuam de acordo com sua disponibilidade.

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Uma das ações da associação de maior visibilidade foi o lançamento, em 2014, do aplicativo Bee Alert, em português, inglês e espanhol, para que criadores de todo o mundo inserissem dados sobre perda ou morte expressiva de abelhas, incluindo a localização da ocorrência, a intensidade, as causas e os prejuízos gerados. A ferramenta faz toda a diferença, porque mostra a real dimensão do problema. No momento, o app está fora do ar, enquanto os desenvolvedores trabalham em atualizações. Mas o principal projeto da ONG nasceria no Natal daquele mesmo ano.

foto da Juliana Bendini
Juliana Bendini, 43 anos, professora, de Picos (PI), usa o material da ONG para ensinar crianças do semiárido piauiense
Foto: acervo pessoal

A Bee or Not to Be? já tinha reconhecimento internacional em congressos de apicultura quando Lionel fez um pedido à filha, a também professora Rosane Peruchi: desenvolver um projeto específico para as crianças. É que, ao longo de décadas como professor da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, Lionel formou centenas de alunos, mas nunca havia trabalhado com os pequenos. E a filha possuía a experiência de atuação com essa faixa etária, inclusive na produção de materiais didáticos.

Em janeiro de 2015, os dois começaram a escrever o que se tornaria o Caderno de Atividades para Educação Ambiental Sem Abelha, Sem Alimento. Com o primeiro esboço em mãos, o passo seguinte foi apresentar a ideia ao Ministério do Meio Ambiente, que patrocinou, junto com o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, a impressão e a distribuição gratuita do caderno em escolas municipais de diversas cidades (o material também está disponível aqui).

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O projeto foi ganhando tanta dimensão que, em 2018, a ONG passou a levar os alunos de Ribeirão Preto para visitar espaços onde pudessem ver as abelhas e entender a função delas no ecossistema. Até 2019, os passeios aconteceram de segunda a sexta-feira e contaram com a participação de mais de 6 mil crianças. Nas férias, a instituição organizou feiras de conhecimento no bosque, aos domingos, abertas ao público. “Como proteger o que não se conhece? Como defender as abelhas se existe um discurso desfavorável pautado no medo?”, questiona Rosane. A resposta: levando informação às pessoas. “A missão de preservar os polinizadores exige um trabalho educacional junto à sociedade. Por isso, muitas das nossas ações são feitas para dar visibilidade à causa.”

Educação agroecológica

Além da iniciativa nas escolas, a Bee or Not to Be? realiza os projetos “Cidade Amiga das Abelhas” e “Empresa Amiga das Abelhas”, de consultoria e incentivo a gestores públicos e ao mundo corporativo para adotarem práticas de proteção aos polinizadores. Os interessados pagam uma anuidade à ONG, ajudando a custear suas atividades, e em troca recebem material de educação ambiental, selo e certificado de reconhecimento. A instituição também mantém uma loja on-line para a venda do caderno de atividades, de camisetas e de bótons.

Em 2020, a pandemia de covid fez com que a ONG apertasse o freio nas atividades, que não puderam mais ser realizadas de forma presencial. Mas os eventos on-line continuam – e a disseminação de conhecimento também.

Na Universidade Federal do Piauí, a professora Juliana Bendini coordena um projeto de educação agroecológica com apoio da instituição. “Recebemos crianças de escolas de municípios do semiárido piauiense para que aprendam sobre a importância das abelhas, das plantas, das sementes crioulas e da agricultura sem veneno”, diz Juliana. “O professor Lionel já nos visitou e nos deu várias dicas. Utilizamos o caderno da Bee or Not to Be? nas atividades e já enviamos esse material para crianças de um povoado rural de Alagoinha do Piauí.” Para ela, a ONG é fonte de conhecimento e inspiração. “Percebemos que, juntos, podemos atuar por um mundo melhor.”

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Para Rosane, a missão de construir conhecimento sobre as abelhas não vai parar. A expectativa para 2022 é retomar os projetos educacionais em parceria com as escolas e permitir que as crianças voltem empolgadas para casa, contando tudo o que aprenderam aos pais. Assim, o ciclo do conhecimento segue vivo. “A partir do momento que você entende a importância das abelhas e como seria drástica a falta delas no meio ambiente, passa a ver sentido em protegê-las”, afirma.

Texto: Camila Henriques
Foto: Karin Rossi
Conteúdo publicado originalmente na TODOS #40, em novembro de 2021.

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