Professor fala sobre transexualidade a crianças do jardim de infância no Canadá

O tema da transexualidade ainda é um tabu para crianças e adultos. Embora, recentemente, acompanhamos a discussão sobre as pessoas trans em uma novela, na TV aberta, não podemos esquecer que vivemos no país com mais assassinatos de transexuais e travestis.

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Daí a necessidade desse debate ser mais recorrente, em casa, no bairro onde vivemos e na escola – de preferência nos anos iniciais e de um jeito que as crianças entendam, sem complicação e com objetividade.

As crianças são mais propensas do que os adultos para conhecer o novo, já que a transfobia – palavra que dificilmente crianças de 5, 6 anos de idade ouviram falar – não está enraizada na sua personalidade, ao contrário do que acontece com muitos adultos, inclusive parlamentares.

discussão crianças pessoas trans
A atriz Carol Duarte interpretou o personagem transexual Ivan, na novela “A Força do Querer”, da TV Globo. Foto: Divulgação

Diante da falta de exemplos de professores que propõem essa discussão às crianças, no Brasil, encontramos um exemplo no Canadá, país conhecido por abraçar e celebrar a diversidade: de povos, etnias e de gêneros.

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Não que lá não exista preconceito, que todos os canadenses são tolerantes – detesto usar essa palavra, mas ela cumpre o sentido que propomos. Essas pessoas existem, mas em menor quantidade, se compararmos com nosso país.

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A prova disso é que as escolas do país, no dia 11 de abril, celebram o “Day of Pink” (Em tradução livre: Dia do Rosa), com palestras e atividades para combater a homofobia e a transfobia. “A escola em que trabalho celebra esse dia – assim como a maioria das escolas daqui, isso me fez perceber um boa oportunidade para falar com meus alunos sobre o tema”, disse o professor de jardim de infância Asladair McCaskill, de 35 anos, em conversa com o Razões para Acreditar.

Essa é a primeira vez que ele trabalha com crianças do jardim de infância. Antes, ele só deu aulas para adolescentes. “Tem sido interessante, porque estou acostumado a ensinar alunos mais velhos”, afirma. “Nossa discussão sobre as pessoas da comunidade trans foi incrível.”

Asladair usou trechos do livro “My Princess Boy” (“Meu Menino Princesa”, em português), de Cheryl Kilodavis, na palestra realizada na Roberta Bondar Public School onde ele leciona, em Toronto. O livro é direcionado para o público infantil e traz em sua última página uma pergunta, que pode ser traduzida assim: “Se você ver um menino usando vestido, irá zombar dele?”.

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Livro infantil “My Princess Boy”. Foto: Asladair/Arquivo Pessoal

“Uma simples conversa, mas bastante impactante.”

“Foi maravilhoso ouvir os alunos responderem apaixonadamente essas perguntas com um ‘Não’”, lembra o professor. “Não entrei em detalhes sobre a transexualidade, simplesmente afirmei que às vezes os garotos sentem que são garotas e que às vezes as garotas sentem que são garotos, e que isso é normal”. E completou ainda incentivando a amizade: “E quando conhecermos novos amigos que sentem que são assim, nós podemos brincar e ser melhor amigos deles também”, disse.

Muitos alunos de Asladair são filhos de imigrantes que vieram de países como a Índia e o Paquistão, religião hindu e muçulmana, respectivamente. “Por isso, é importante que eles ouçam essas mensagens da escola, no espaço seguro da sala de aula”, acredita o professor.

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Asladair se diz muito feliz pela abertura que a escola dá para falar de temas como a transexualidade.

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E um aspecto bastante importante a ser mencionado: toda a atividade foi feita com autorização prévia dos pais.

“Nos dias que antecederam a atividade, enviei uma carta para as famílias incentivando-as a enviar seus filhos para a escola usando uma camisa rosa, com uma breve explicação do que o dia 11 de abril representa.”

Ele conta que as escolas do Canadá são obrigatoriamente espaços seguros para os LGBTQ+. Tanto que as salas de aula e mesmo as salas dos professores têm um adesivo de arco-íris colado na porta:

sala escola crianças adesivo respeito LGBTQ+
“Espaço LGBTQ+ Seguro”. Foto: Asladair/Arquivo Pessoal

“Apesar da ignorância e da intolerância estarem vivas no Canadá, felizmente, não vemos isso em instituições públicas e federais”, finaliza Asladair.

Fizemos então uma última pergunta que acaba sendo um receio de muitos pais quando se trata da abordagem do tema:

“Você acha que falar sobre transexualidade com crianças pode influenciar no gênero das crianças?” Asladair foi categórico na resposta: “Absolutamente não. Nós não estamos ensinando crianças a serem transexuais, mas nós trazemos o tema da aceitação para um ângulo que elas entendem. Encorajamos crianças a serem amigas de pessoas que são diferentes delas e aceitá-las do jeito que elas são.”

Abaixo um print de um stories que ele fez no dia da atividade:

crianças transexualidade
Em um trecho do livro, ele faz perguntas como: “Se você vê um Garoto Princesa você vai rir dele?” A resposta foi unânime: Não!

Abaixo o livro ilustrado “My Princess Boy”, vejam:

Nota da Redação: Queridos leitores, caso conheçam professores brasileiros que fazem ou já fizeram um trabalho parecido, a gente vai amar conhecer. 💋

Fotos: Foto: Asladair McCaskill/Arquivo Pessoal

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