Cientistas brasileiros criam prótese que devolve voz a quem perdeu laringe por câncer

Cientistas do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) desenvolveram uma prótese 100% brasileira que devolve a voz a pessoas que perderam parcial ou integralmente a laringe devido ao câncer.

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Criado no Laboratório de Vibrações e Acústica (LVA) da UFSC, o modelo é considerado bem mais acessível e barato quando comparado aos já existentes no mercado.

A prótese de voz desenvolvida é completamente diferente da oferecida pelo SUS, conhecida coloquialmente como ‘laringe eletrônica’, uma vez que deixa a voz robotizada.

O protótipo catarinense é uma espécie de válvula que permite a produção de som semelhante à voz de um indivíduo falante saudável, com rouquidão moderada, porém estável em termos de volume e intensidade.

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“Nossa pesquisa tem grande apelo social porque viabilizaria uma prótese de voz para uma parcela enorme da população”, diz o professor Andrey Ricardo da Silva, cuja equipe trabalha em cooperação com o Centro de Pesquisas Oncológicas de Santa Catarina (Cepon).

O câncer de laringe

Segundo dados do INCA – Instituto Nacional de Câncer, estima-se que cerca de 8 mil pessoas descubram ter câncer de laringe no Brasil todos os anos.

Quando diagnosticados tardiamente, o que infelizmente é a regra em nosso país, 4 em cada 5 casos exigem a retirada total da laringe (laringectomia total). A retirada do órgão é necessária, implicando na perda de capacidade da fala.

Atualmente, as únicas próteses disponíveis no Brasil são importadas da Suécia ou dos EUA e são caras: custam até R$ 2.400 e é preciso trocar as válvulas a cada seis meses.

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Ensaio realizado no anfiteatro do Cepon

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Restabelecimento da voz

Especialistas da fonoaudiologia e otorrinolaringologia afirmam que a maneira mais eficaz de restabelecer a voz em pacientes cuja laringe foi totalmente retirada seja a prótese tráqueo-esofágica, como a que está em desenvolvimento no LVA.

“Só existem três formas de reabilitar a fonação dos pacientes que perderam a laringe: laringe eletrônica, prótese tráqueo-esofágica e voz esofágica, com treino fonoaudiológico. A prótese é a mais eficiente em qualidade vocal, mas ainda não é padronizada pelo SUS. A possibilidade de termos uma prótese nacional, ampliaria a possibilidade de padronização dessa alternativa. E a absoluta maioria dos pacientes laringectomizados poderá recebê-la”, diz Luiz Medina Santos, médico do Centro de Pesquisas Oncológicas de Santa Catarina (Cepon).

Leia também: Pesquisadores suíços criam prótese mecânica de perna com sensação de ‘tato’

Segundo fontes do SUS, a prótese de voz 100% brasileira já poderia estar pronta se os aportes prometidos pelo governo federal tivessem sido feitos. E com os recentes cortes, sua fabricação pode atrasar ainda mais.

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Professor Andrey Ricardo da Silva

Produção das próteses

Uma única prótese leva até 15 horas para ser impressa numa impressora 3D. Outros dois dias são necessários para que a secagem do silicone injetado no molde aconteça.

Esse processo está sendo estudado pelo engenheiro André Miazaki da Costa Tourinho, que viajou de Brasília para Santa Catarina para compreender melhor a modelagem das próteses.

Leia também: USP descobre molécula que reduz tumor e evita metástase do câncer de ovário

André conseguiu bolsa de doutorado no ano passado para estudar no LVA. “O legal da pesquisa é poder ajudar pessoas laringectomizadas que precisam de ajuda”, afirma.

Alguns indivíduos não conseguem falar nada e precisa escrever para serem compreendidos. Outros falam com dificuldades, porque mesmo com a laringe eletrônica a pessoa precisa aprender certos macetes. ” Às vezes as pessoas entram na Justiça para que o SUS pague uma parte da prótese importada, e mesmo conseguindo, acabam tentando usar a prótese por mais tempo que o recomendado. É difícil para todo mundo”, conclui o engenheiro.

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Fonte: SNB/Fotos: Reprodução/UFSC

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