Reeducando de penitenciária na PB é aprovado em 4 vestibulares de Medicina

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Dois homens sentados em banco de carro dando aperto de mãos e sorrindo e Homem sorrindo na rua

O conceito de educação libertadora de Paulo Freire não poderia ser melhor ilustrado senão com a história de André Soares da Cunha, de 35 anos. Não, não estamos querendo relativizar um crime, aliás, vários, mas o julgamento ficou a cargo da Justiça.

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Também não se trata de uma valorização do esforço individual ou romantização da meritocracia, mas uma pílula de transformação que liberta de uma prisão de sentidos. Estamos falando agora é da história de um dos poucos reeducandos no Brasil aprovados em um curso de medicina. Aliás, um não, quatro!

André passou em medicina na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG); na Universidade do Estado da Bahia (UNEB); no Centro Universitário de Patos (Unifip) e nas Faculdades de Ciências Médicas (FCM-PB).

Esta semana, ele pôde colocar os pés fora da cadeia (a mente já estava) e assistir às primeiras aulas do curso no Centro de Ciências Biológicas e da Saúde (CCBS), da UFCG. O diretor da unidade prisional foi quem o levou da cela à sala.

Lenni Sucupira registrou a ida ao primeiro dia de aula de André:

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“A emoção é muito grande, ainda estou digerindo. Você começa a ser grato em tudo, do zelador que cuida ao professor que lhe dá aula, você olha para as pessoas com respeito, com gratidão. A ansiedade foi a mil, a sensação, valeu todo o esforço. O sentimento é de gratidão a todas as pessoas que ajudaram”, diz eufórico.

Uma sentença sobre o saber

O jovem cumpre sentença em regime fechado e quis estudar desde a hora que entrou no presídio. “Entrei já pensando em estudar e sair com um foco diferente”, conta.

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No início foram anos em que a prisão não se restringia apenas às grades. “Eu queria estudar, ir além, mas as outras gestões não permitiam”, relembra. Depois da chegada do novo diretor, uma coisa especial passou a ser liberada para entrar no presídio: os livros e as videoaulas.

“Logo quando eu cheguei, tinha um apenado que quase que diariamente me abordava. Ele pediu autorização para a entrada de alguns livros diferenciados e material de estudo. Depois de um mês eu atendi ao pedido e novamente ele me abordou manifestando a vontade de estudar mais. Ele passou uns seis meses insistindo. Resolvi investir e dar uma oportunidade. E aí começou uma nova história”, disse o diretor.

Os muros da penitenciária Raymundo Asfora (O Serrotão) assistiram à chegada do mais novo frequentador da unidade: o conhecimento. O presídio já detinha uma escola de educação básica: a Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio que leva o nome justamente de Paulo Freire. 

Foto de escola com parede branca e escada cinza de corrimão amarelo
Foto: Reprodução/Instagram @lennisucupira

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André passou a se dedicar diariamente às aulas com os professores do ensino regular. Em pouco tempo, fez o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), que este ano completa 20 anos de execução. E foi aprovado!

Começava a segunda batalha: estudar para o Exame Nacional do Ensino Médio para Pessoas Privadas de Liberdade (Enem PPL). Ele passou a trabalhar dentro da própria unidade prisional para conseguir remissões para a progressão de pena.

Trabalhava das 7h às 17h como zelador e estudava das 18h às 0h para o Enem. “O ambiente é caótico para estudar, é quase impossível, você não é bem visto porque está estudando, os caras olham meio torto. Era uma rotina cansativa”, conta.

Foram pelo menos dois anos de preparação e, no ano passado, veio um dos melhores resultados em toda a história: primeiro lugar geral no curso de odontologia da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). As algemas simbolicamente se aquebrantavam.

Mas nem a aprovação em odontologia lhe tirou sorriso do rosto. “Nós ficamos muito felizes, mas ele ficou muito triste porque ele queria passar em medicina. Eu cheguei para ele e disse: ‘Pra quê tristeza? Tu vai passar!’ E nós passamos a dar toda estrutura para ele estudar”, contou Lenni Sucupira, diretor da unidade prisional.

“Foi naquele processo de rotina e de disciplina que consegui. Sucupira me ensinou a ter disciplina, deu o exemplo”, reconhece o agora estudante.

Dois homens sentados em banco de carro dando aperto de mãos e sorrindo
Lenni Sucupira levou André à aula no seu primeiro dia. Foto: Reprodução/Instagram @lennisucupira

André perdeu o pai antes de ser preso e prometeu ser médico para cuidar das pessoas

O sonho da medicina não era um acaso. O jovem é filho de um casal de agricultores. Cresceu assistindo os pais arrancarem a vida da terra. Talvez pela dureza do que assistira, se encantara com outro caminho menos espinhoso. Mas colheu também os espinhos do que plantou (na prisão).

Uma semana antes da prisão de André, o pai dele passou mal e foi internado com infecção urinária. Em três breves dias, os rins paralisaram. “No leito de morte, chorando, eu disse a ele que lhe daria muito orgulho e que seria um médico para cuidar de outras pessoas como ele”, relembra sem conter o remorso.

Foi por esta determinação que o rapaz se manteve focado. Cursar odontologia garantiria a André passar o dia fora da penitenciária para estudar. “Não era só pela questão da liberdade, mas todo um conjunto de fatores”, disse ele, que abriu mão do direito de sair da penitenciária durante o dia para fazer o curso, com o objetivo de continuar recluso estudando na prisão para passar em medicina.

No ano seguinte, veio a melhor sentença: aprovado no curso que prometeu ao seu pai, e com a maior nota geral e a maior nota em redação do Enem PPL. “Foi uma das reflexões que mais pesaram em mim. Pretendo entrar na formatura com a foto dele. Eu não tive a oportunidade de mostrar pra ele a volta por cima”. Essa volta ele acompanha lá de cima.

Para conseguir o direito de ir à faculdade, precisou da autorização da Justiça, aquela mesma que a sentenciava anos atrás e julgava por seus 88 processos, hoje o consagrara com o direito que ele conquistou: ir e vir (para estudar).

Homem sorrindo na rua
André na universidade. Foto: Aldair Rodrigues

André vai à faculdade para as aulas pela manhã e à tarde monitorado com tornozeleira eletrônica e retorna para a cadeia durante a noite. O conhecimento vai clareando o seu dia e sua presença abrindo clareiras no ambiente obscuro da penitenciária.

Quais crimes André cometeu?

Eu sei que o amigo leitor está intrigado até o momento buscando saber o que levou André à prisão… Trouxemos você até aqui sem dizer para que você não se fechasse à conquista de André pelos erros que cometeu no passado. Talvez você já tenha dado um Google com o nome dele, mas aqui vai a explicação:

O reeducando era funcionário do INSS e aplicou golpes forjando benefícios de aposentadoria. O esquema funcionava concedendo golpes em agricultores, que eram aliciados para se aposentarem e depois a quadrilha fazia empréstimos nos nomes desses agricultores. Pessoas simples, como os pais de André, para quem ele também tratou de conceder aposentadorias com valores altíssimos. Muitos trabalhadores rurais foram prejudicados, lavradores como os pais dele. Talvez por isso, o arrependimento.

“Errar é humano, mas a questão é como você vai lidar com esse erro. As pessoas precisam passar a não ter aquele olhar tão preconceituoso, cada pessoa é um mundo, não deixei de ser humano, sofri muito”, disse.

André chegou a esbanjar e ostentar bastante no período em que aplicava os golpes, com apartamento de luxo, viagens e restaurantes caros e até compra de animais de estimação caríssimos. Sobre isso ele reflete:

“Nós temos uma prateleira de valores, que às vezes estão desalinhados. Ser ambicioso é bom, mas não pode estar acima da prateleira do respeito e da honestidade. Ser corajoso também, mas não mais que ser bom”, diz.

Para ele, o pilares da volta por cima foram a determinação; a espiritualidade (“Não somente em Deus, mas no universo, em algo bom”); a ajuda que recebeu do diretor do presídio e dos professores da escola; o suporte da família, dos irmãos, da mãe e da companheira; e o SOFRIMENTO.

O sofrimento atua como realinhador dos seus valores e ensina o que você precisa na vida, rompe sua alma, consegue trazer mais mundo”, avalia. É a aprovação que veio com a provação.

Um preso exemplar?

Não é eufemismo dizer que André é um preso exemplar, e não só pela conduta no presídio, que lhe rendeu progressão de pena a ponto de ele projetar sua soltura para abril do próximo ano. (Não, o crime não compensa, tá?) 

A questão é maior: é o exemplo do preso, detento, apenado, que virou reeducando, que agora é aluno de medicina. É uma receita que pode ser prescrita a mais e mais presos, cada um dentro de uma determinada anamnese, dirimindo efeitos colaterais, buscando um antídoto para a reinserção social. O exemplo está ensinando.

Hoje quando retorno pra lá percebo uma energia diferente, as pessoas querendo estudar, correr atrás”, disse.

André, antes mesmo da aprovação, passou a dar aulas para os reeducandos. Dedicava os fins de semana a ensinar o que aprendia. “Isso ajudou a fazer com que eu expressasse o conhecimento para outras pessoas e servisse de exemplo para os outros e aprendesse com isso”, diz.

Quando fez o Encceja pela primeira vez, apenas outro candidato da mesma penitenciária se sentou ao seu lado na carteira para buscar o mesmo objetivo. Só André conseguiu passar.

Daquele ano para o mais recente do exame, o número de candidatos saiu de uma para espetaculares 19 aprovações. E este ano, 47 se inscreveram no Encceja. É uma conta de matemática que dá gosto de fazer.

No Enem, o salto foi de uma aprovação somente (de André) para animadoras 16 classificações de presos do Serrotão no mais novo teste. Em toda a Paraíba, no ano passado foram 19, ou seja, mais de 80% são da penitenciária de André.

Quando o exemplo e as condições arrastam, essa equação é exata. O Serrotão até já teve no passado um campus da Universidade Estadual da Paraíba dentro do complexo penitenciário.

“Criei um método de estudos e de aulas para aulas, só com o foco do que realmente se cobrava. Tem um que era praticamente analfabeto funcional, saiu, está cursando telemática e trabalhando como eletricista. Tem seu Zé Carlos, de 50 anos, que fez ensino fundamental, médio, e quer cursar Educação Física. Ele me disse que achava que sua vida já estava acabada. Se você consegue mudar a realidade de uma pessoa, ela muda a de outra e vai gerando uma energia do bem”, comemora André.

Um médico livre

Esquecemos de assinalar que esta também não é uma matéria de hipervalorização da profissão médica, mas uma celebração de uma conquista sim legítima e difícil.

É necessário dizer isto para demarcar, antes de tudo, que o médico não é alguém maior. É uma vez mais importante dizer isto, num contexto de profusão de formaturas de médicos que visam, tão somente, às quantias vultuosas de dinheiro que a profissão pode trazer. Para André, não é isso somente o que importa. Ele já experimentou que o encantamento com o dinheiro não é tão salutar.

Não é uma questão financeira. Quero levar atendimento para pessoas carentes, que precisam, fazer um projeto para assistência em presídios e comunidades quilombolas. É um sonho”, finalizou.

A educação é emancipatória e, assim como a medicina, também pode curar: a mente e a alma.

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