Quem foi que disse que velhice é doença?

A psicóloga de idosos Raquel Ribeiro (CRP 06/73384), 35 anos, é uma voz ativa no enfrentamento dessa visão negativa da velhice. Ela acredita que os idosos têm totais condições de serem pessoas ativas: a palavra-chave é “adaptação”. O aumento da dependência e dos casos de depressão são alguns dos efeitos mais devastadores quando se associa a velhice à fragilidade.


Quem foi que disse que velhice é doença? 1
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Velhice não é sinônimo de fragilidade ou de doença, mas de produtividade e de alegria. O senso comum diz que não, “idoso sabe fazer nada sozinho, deve ficar em casa mesmo, de preferência, sentado no sofá ou deitado na cama”. Uma ideia preconceituosa que pode, e precisa, ser desconstruída com informação de qualidade e um conjunto de ações que permeiam toda a sociedade.

A psicóloga de idosos Raquel Ribeiro (CRP 06/73384), 35 anos, é uma voz ativa no enfrentamento dessa visão negativa da velhice. Ela acredita que os idosos têm totais condições de serem pessoas ativas: a palavra-chave é “adaptação”. O aumento da dependência e dos casos de depressão são alguns dos efeitos mais devastadores quando se associa a velhice à fragilidade.

Na entrevista a seguir, concedida ao Razões para Acreditar, a doutora aponta os caminhos para desconstrução dos preconceitos contra pessoas com 60 anos ou mais, os problemas que os idosos estão expostos em decorrência desse entendimento negativo da velhice, como idosos de outras partes do mundo vivenciam a velhice ativamente, o papel dos cuidadores de idosos e alguns dos seus projetos que pautam a construção de uma mentalidade pós-fragilidade sobre a velhice.

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Como podemos desconstruir o conceito que associa impotência/fragilidade à velhice e promover uma relação mais positiva e respeitosa com os idosos?

Esse é um dos grandes desafios da sociedade atual. É praticamente automático as pessoas relacionarem os termos “idoso” e “velhice” às ideias de doença, fragilidade e improdutividade, mas essa visão está distorcida. Idosos são simplesmente pessoas com 60 anos ou mais e a grande maioria deles é ativa, criativa, saudável e totalmente independente. Claro, existem alterações fisiológicas mas, ao contrário do que a maior parte das pessoas acredita, elas não são limitantes no envelhecimento normal e para lidar com elas, a palavra-chave é adaptação. É fundamental que as pessoas passem a olhar os idosos com essa nova lente e compreendam que eles têm total condição de continuar contribuindo muito para a sociedade.

Agora, sua pergunta é como desconstruir esse conceito negativo associado à velhice e ao idoso. Acredito que seja necessário um esforço conjunto em diferentes esferas: 1) Educação: desde idades iniciais, na escola, favorecer momentos de integração entre crianças, adolescentes e idosos com projetos intergeracionais, dias especiais em que os idosos possam realizar atividades com os mais jovens que sejam interessantes para ambos; 2) Cultura: a mídia televisiva apresentar, em novelas, personagens idosos que não sejam estereotipados e que mais exemplos de idosos ativos sejam mostrados na mídia em geral, televisão, internet, rádio, cinema etc. Um exemplo pode ser encontrado no filme “Envelhescência”, de Gabriel Martinez; 3) Empresas que trabalham com o público idoso: bancos, farmácias, supermercados, entre outros, precisam treinar seus funcionários para atenderem idosos sem infantilizá-los e sem achar que eles são incapazes de realizarem certas ações, como irem ao banco desacompanhados apenas baseados na idade, por exemplo; 4) Profissionais da saúde: muitos idosos reclamam para mim que foram em consultas médicas com familiares e que o médico se dirigiu apenas ao acompanhante, deixando o idoso sem voz nem vez. Isso acontece com outros profissionais também, por isso, é importante que tenham uma formação específica sobre idosos durante seus cursos, pois, com o envelhecimento populacional, atender esse público vai ser cada vez mais frequente e 5) Planos de saúde: a maior parte dessas empresas foca seu olhar sobre a doença e o tratamento curativo caro em detrimento da saúde e de práticas preventivas, bem mais baratas. Planos de saúde podem mudar essa realidade oferecendo serviços de empoderamento, apoio, socialização e troca de conhecimento e afetos entre idosos que diminuem (e muito) a incidência de doenças e condições frequentes que geram ou aumentam dependência. O olhar para pessoas de outras faixas etárias também é importante. Sonho com o dia em que os planos de saúde façam, por exemplo, parcerias com vendedores de produtos orgânicos para seus associados terem descontos. Isso, por si já seria um reforço do paradigma da saúde, pois diminuindo a ingestão de agrotóxicos, provavelmente teremos uma porcentagem maior de pessoas saudáveis em todas as idades.

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Que tipo de problema de ordem psicológica e mesmo física os idosos estão expostos quando impedimos eles de fazerem coisas que fizeram a vida toda?

No meu dia a dia como psicóloga de idosos, vejo muito efeitos devastadores da associação entre idoso e fragilidade.

Um deles é quando o próprio idoso passa a desacreditar de suas potências e começa a agir como se não fosse mais capaz de fazer coisas que fazia antes e que tem habilidade para fazer. Uma cliente minha, de 78 anos, que sempre trabalhou muito e pesado (até empalhava jacarés e tatus), de repente, se viu proibida pela família de andar até o salão de beleza que fica a um quarteirão da casa dela. Ela fica em casa sem fazer nada e acabou acreditando que não consegue andar fora de casa e aos poucos foi permanecendo no sofá por mais tempo. Sim, ela tem um pouco de dificuldade de marcha, mas consegue se deslocar por um quarteirão tendo consciência de ir mais devagar, utilizar um sapato adequado e apoiar-se na bengala.

Outro efeito, além do aumento da dependência, é o aumento insidioso de casos de depressão entre idosos. Esse é um problema de saúde pública gravíssimo e penso que está muito relacionado às crenças que as pessoas de outras faixas etárias têm em relação aos idosos e que eles próprios começam a ter sobre si mesmos. É preciso barrar isso com novas crenças positivas e ações de incentivo.

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A melhoria na qualidade de vida de modo geral permite ao idoso se manter ativo por muito mais tempo, mas, por causa do preconceito, desperdiçamos essa energia toda com ações rejeitadoras e paternalistas oferecidas de forma errada aos idosos. Existem propostas para mudar esse quadro, no Brasil ou em outros lugares do mundo?

Essas ações de exclusão e paternalismo dos idosos são culturais e diferem entre países. É interessante ir para a Europa e ver os idosos, massivamente, nas ruas, nos ônibus, nos bares. Em Berlim, na Alemanha, encontrei um grupo de 4 idosas com mais de 80 anos em um Pub de madrugada. Elas saíram de sua cidade, a uns 100 km da capital alemã, hospedaram-se em um hotel e saíram para beber. Conversei com uma delas que me contou que elas fazem isso sempre. Isso é muito raro de se ver no Brasil. Aqui, a gente costuma deixar os idosos nas suas casas, nos sofás. Se eles querem água, nós levantamos prontamente e falamos que eles não precisam se esforçar. Entendo que é uma gentileza, um cuidado, mas precisamos avaliar se está gerando mais incapacidade do que ajudando. Talvez a gente possa ser gentil acompanhando o idoso até a cozinha, onde ele próprio busque sua água e faça o exercício da caminhada. Caso ele seja independente e consiga andar, mesmo que com um pouco de dificuldade, por que não?

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Qual o papel do cuidador de idosos, gerar dependência do idoso ou empoderá-lo? Em muitos casos, parece gerar dependência justamente por causa do preconceito em torno da velhice.

Quando falamos de cuidadores de idosos, estamos nos referindo a idosos que têm algum nível de dependência, de leve à moderada. O cuidador bem treinado e orientado no dia a dia estimula o idoso a realizar sozinho o máximo de atividades que for capaz. Quando oriento famílias e cuidadores profissionais, explico que é importante avaliar o quanto o idoso consegue realizar e deixá-lo fazer sozinho. Se o idoso pode se levantar sozinho, deixe ele fazer isso, dando um apoio verbal como “Eu sei que você consegue se levantar sem ajuda, isso vai fortalecer as suas pernas”. Caso contrário, o idoso vai precisar cada vez mais de ajuda, pois vai enfraquecendo e acreditando menos nas suas capacidades.

É importante que a gente saiba que podemos transformar realidades com orientações e informações de qualidade. Nós, especialistas em idosos, temos feito isso e estamos tentando fazer a mensagem chegar a mais pessoas.

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Fale um pouco do Ateliê do Cuidado, do curso que você coordena, da metodologia usada, e do projeto SP Idosos.

O Ateliê do Cuidado é uma empresa especializada em idosos, nosso grande objetivo é ajudar idosos a viverem melhor e, para isso, trabalhamos em várias frentes. São realizados atendimentos a idosos com depressão ou que simplesmente buscam estruturar suas novas rotinas de uma maneira satisfatória e inspiradora; orientações a familiares de idosos que estão em situação de dependência, pensando em um cuidado sustentável a médio e longo prazo; palestras em empresas sobre comunicação empática, potencialidades dos idosos, cuidado que favoreça a autonomia etc.; cursos em prefeituras para equipes da assistência social e saúde; consultorias a empresas e profissionais que prestam serviços a idosos ou que queiram abrir empresas para esse público; e Curso de Cuidadores de Idosos.

No Curso de Cuidadores de Idosos, professores de sete áreas da saúde ensinam os alunos a cuidarem estimulando a autonomia e a independência, buscando ao máximo colocar o aluno no lugar do idoso para sensibilizá-lo. O curso dura 5 meses e quando me perguntam porque é tão longo, respondo que estou mudando a mentalidade sobre como cuidar e não apenas ensinando técnicas. Para isso, é preciso cozinhar em fogo baixo. Estamos localizados em Campinas (SP), mas alguns tipos de serviços são oferecidos a distância e outros são realizados nas cidades dos contratantes.

Já o projeto SP Idosos busca mostrar vivências positivas de idosos para motivar a discussão de conceitos e preconceitos. São apresentadas fotos de idosos ativos e contadas as histórias deles, seus amores, seus desafios, suas alegrias e seus enfrentamentos. O impacto da página foi muito grande e são vistos comentários de pessoas de todas as idades. Espero, assim, contribuir um pouco para fortalecer a ideia de que idoso é sinônimo de alegria, atividade, produtividade e amor.

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