“Se o Lucas tivesse ido para um abrigo, ele teria ficado lá. As crianças brancas são as mais procuradas”

O ano era 1993 e rejeitado pela mãe biológica, Lucas Pinangé foi deixado na porta do hospital onde Maria da Graça trabalhava, em Goiânia (GO).

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Naquela época, uma colega de trabalho tinha vontade de adotar uma criança. Porém, Lucas foi parar mesmo nos braços da dona Graça.

Ao conhecer Lucas, hoje com 28 anos, dona Graça, de 70 anos, o levou para casa por impulso. Ela conta que se Lucas tivesse ido para um abrigo as chances dele ser adotado seriam pequenas, pois era uma criança negra.

Decidiu que ficaria com Lucas até surgir alguém interessado em adotá-lo. Já mãe de três filhos, dona Graça não tinha esse desejo. No caminho para casa, dona Graça comprou leite, já que Lucas estava há horas sem se alimentar.

fotos criança negra sobre mesa rodeada folhas verdes
Foto: Lucas Pinangé/arquivo pessoal

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Dona Graça procurou e procurou, porém ninguém quis adotar Lucas, inclusive, a colega de trabalho, que acabou adotando um cachorro. 

Foi então que, com a ajuda de um colega advogado, dona Graça deu entrada no processo de adoção. Depois de algumas visitas de psicólogos e assistentes sociais, dona Graça tornou-se mãe de Lucas, também no papel, porque no coração ela já era.

Conversa sobre a adoção

Quando tinha por volta dos 7 anos, enquanto a família separava papéis antigos para serem jogados fora, Lucas encontrou sua certidão de nascimento, que continha o nome de registro e o da adoção.

Imediatamente, dona Graça tirou o documento de suas mãos. Ela temia que Lucas se sentisse excluído ao descobrir que não era seu filho de sangue.

“Eu ri, tipo, ‘coitada, até parece que eu não sei’. Sempre tive essa convicção. De alguma forma, aquilo já estava em paz no meu coração, tendo a consciência de que estava destinado a essa família”, revela Lucas.

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Dona Graça não lembra exatamente como foi a conversa, que tentou adiar até quanto pôde, mas ela aconteceu e, para sua surpresa, Lucas nem sequer quis conhecer a família biológica.

filho usando roupa chef abraçando mãe sorrindo
Foto: Lucas Pinangé/arquivo pessoal

Mas um medo acompanhou Lucas por algum tempo: ficar sozinho. Tanto que dormia junto com dona Graça e ficava desesperado se a mãe demorasse para buscá-lo na escola. Aos poucos, o medo se transformou em cumplicidade.

“Um filho que tem uma cumplicidade comigo mais do que meus filhos biológicos”, revela dona Graça.

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Dona Graça ensinou Lucas a servir

Dona Graça serviu Lucas desde o instante em que bateu os olhos naquela criança enrolada num lençol. E talvez por influência da mãe, Lucas adora servir, que nada mais é do que amar, segundo ele, e, no seu caso, por meio da gastronomia.

Lucas tomou gosto pela arte dos sabores observando a mãe cozinhar na adolescência. Aos 5 anos, já gostava de montar mesa posta. Nas reuniões de família, fazia questão de organizar tudo o que ia à mesa bem direitinho.

Durante um estágio para a faculdade de Direito, Lucas recebeu um ‘chacoalhão’ de um amigo e resolveu fazer o curso de garde manjer, profissional que prepara pratos frios ou em temperatura ambiente.

antepastos caixa madeira
Foto: Lucas Pinangé/arquivo pessoal

Foi então que ele combinou as duas paixões – o prazer em servir e a gastronomia – e fundou uma empresa de produção de antepastos, chamada Manre, palavra que significa abundância em Hebraico.

“O que eu faço hoje em relação à Manre, não pensando como empresa, mas a partir daquilo que eu recebi… Eu sou resultado daquilo que me foi disponibilizado. Um amor sem reservas, limites, preconceitos, barreiras. Isso me ensinou a servir, a fazer as coisas com apreço e carinho”, afirma Lucas.

Lucas e dona Graça são os convidados do 19º EP do Cafezoom. Dá o play e confira mais sobre esta linda história de adoção:

Os outros episódios do Cafezoom estão disponíveis para você maratonar aqui.

 

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