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Conheça Bosco Farias: deficiente visual e ritmista de um bloco de carnaval de Fortaleza

Bosco toca caixa na bateria do bloco Camaleões do Vila, e não se considera um exemplo de “superação”.


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O Bosco Farias, 34 anos, é deficiente visual e toca na bateria do Camaleões do Vila, escola de percussão e bloco de carnaval de Fortaleza, no Ceará.

Bosco perdeu a visão quando tinha 13 anos por causa de um glaucoma conjunto. Ele nasceu com a doença, mas ela só se manifestou a partir dos 12 anos. A falta de visão, no entanto, não o impediu de aprender a tocar instrumentos de percussão. Ele tinha vontade de tocar em um bloco de carnaval e não deixou escapar a oportunidade quando ela apareceu.

“Eu já tinha interesse e quando veio a oportunidade aproveitei. A noção de tempo e ritmo eu já tinha por conta do pagode que eu toco desde 2000. Nunca fiz aula, quando eu comecei foi sempre muito de ouvido. Os meninos que tocavam comigo que me ensinaram muita coisa”, disse em conversa com o Razões para Acreditar.

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Ele conheceu o Camaleões do Vila através de um amigo, que também toca na bateria do bloco. Participou de uma seleção e foi aprovado. Surgiu então o desafio: como Bosco participaria do cortejo na Avenida Historiador Raimundo Girão?

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Bosco e Rafael no cortejo do bloco Camaleões do Vila

O diretor de tarol e caixa, instrumento que Bosco toca na bateria, Ítalo Nobre, desenvolveu uma série de sinalizações no corpo de Bosco para ele saber o momento de executar as bossas e breques das músicas. Um ritmista veterano, Rafael Gomes, aceitou o convite para acompanhar Bosco no cortejo e marcar as sinalizações no seu corpo.

“Especificamente, pra andar, eu coloco a mão no ombro esquerdo; quando é pra parar, eu dou dois toques no ombro; quando é a virada de segundo, dou dois toques no ombro e tiro; pra dar a virada de terceira, eu dou dois toques no ombro direito; pra parar, dou um toque na barriga. Aí tem outros sinais que são da própria bateria”, explica Rafael.

Até o dia da nossa conversa, Bosco tinha participado de um cortejo. Segundo ele, a sensação é inigualável. “É uma energia muito boa! Embora eu já tocasse e já tivesse me apresentado em público, ali é outra energia. A caminhada foi muito tranquila e, inclusive, dá pra você caminhar no ritmo”, afirma Bosco, sorrindo.

“Foi uma das maiores experiências que eu já tive na avenida, sabe? O que eu falar não chega nem perto do que foi lá na avenida”, comenta Rafael, lembrando que o bloco inteiro se emocionou com a presença de Bosco.

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Toda a preparação foi feita na base da tentativa e erro. Bosco pesquisou outros ritmistas deficientes visuais, mas não encontrou nenhum caso. “Eu pesquisei na internet, consultei amigos cegos em outros estados, se alguém sabia de algum ritmista de escola de samba que tivesse deficiência visual. O máximo que eu encontrei foi um grupo de bateria de pessoas com deficiência visual.”

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“Eles que se superaram”

Bosco não considera tocar no bloco uma “superação” sua. Ele diz que a superação é de Ítalo, que desenvolveu as sinalizações, e de Rafael, que o acompanhou no cortejo. Até porque todo mundo tem dificuldades e precisa se superar a cada dia, acredita.

“Não é só porque uma pessoa tem deficiência que ela é exemplo de superação. Superação é quando a gente se dispõe a sair da nossa zona de conforto pra que outra pessoa atinja seus objetivos. Então, pra mim, quem se superou foi o Ítalo e o Rafael. Eles que se superaram! Eu só tô fazendo o que eu gosto, com a ajuda deles dois e do bloco”, finaliza Bosco.

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crédito das fotos: Reprodução/Instagram @camaleosdovila

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