Gay e deficiente: jovem relata superação após acidente e como se redescobriu sexualmente

Brendo Martins sofreu um atropelamento e ficou paraplégico. Durante sua recuperação, ele se redescobriu sexualmente.


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Ele tinha o que poderíamos chamar de uma vida perfeita: jovem, bonito, um namorado carinhoso e um bom emprego. Tudo mudou de forma trágica em 11 de maio de 2018. Brendo Martins, na época com 23 anos, foi atropelado quando estava a caminho do trabalho pilotando a sua moto, em Salto, no interior de São Paulo.

O impacto foi tão grande que arremessou o corpo de Brendo contra um muro. O motorista fugiu sem oferecer socorro à vítima, que chegou ao hospital com apenas 10% de vida, ficando 13 dias em coma e 3 meses internado sem consciência, com lesões sérias na coluna, 2 traumatismos craniano, ferimentos no rosto etc.

“Quando acordei, achei que tudo fosse um sonho, já que não me lembrava de nada no hospital”, relata. 

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“Quando acordei, achei que tudo fosse um sonho, já que não me lembrava de nada no hospital”. Foto: Arquivo pessoal

Durante o período hospitalizado, o namorado de Brendo teve que revelar para sua família o relacionamento que eles mantinham em segredo, ficando ao lado do jovem quase todos os dias no hospital, revezando nos cuidados junto com a mãe do rapaz.

O namoro durou mais 1 ano. Brendo decidiu terminar a relação por insegurança: “Eu pensava ‘como ele poderia querer namorar um cadeirante?’ Que não sai de casa, que usa fralda”

Se redescobrindo sexualmente

Brendo afirma que nunca gostou de aplicativos de paquera, até que resolver baixar um desses aplicativos e lá ficou por apenas uma semana. Tempo suficiente para conhecer um homem mais velho que viu a paraplegia dele de uma forma diferente. Após pouco mais de 1 ano sem sexo, ele teve sua primeira relação sexual. Breno diz que o companheiro foi mostrando novas formas dele sentir prazer.

Questionado se o rapaz de 38 anos havia se tornando seu novo namorado, ele desconversa e diz que não oficializou nada no momento, mas que tudo é conversado, e sorri ao declarar que ele conseguiu despertá-lo sexualmente.

Ser uma pessoa com deficiência física no meio LGBT

A descoberta da sexualidade veio aos 15 anos, mas antes de se relacionar com alguém do mesmo sexo, Brendo teve 2 namoradas, com quem teve suas primeiras experiências sexuais.

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Breno ficou paraplégico após sofrer um grave acidente. Foto: Arquivo pessoal

Perguntado sobre como é ser uma pessoa com deficiência física no meio LGBT, Brendo afirma que não importa se a pessoa é bonita ou feia, todos só se importam com o sexo. Para ele, ser gay no mundo PcD (pessoa com deficiência) é não ter ninguém que o represente. Segundo ele, existe uma carência de informações sobre ser gay e deficiente físico, principalmente no âmbito sexual.

Aplicativo de paquera une pessoas com deficiência

Considerado o Tinder para as pessoas com deficiência, o Devotee é um aplicativo que conecta pessoas com deficiências físicas diferentes, entretanto, qualquer pessoa é bem-vinda, inclusive, o termo Devotee designa pessoas (não deficiente) que sente atração por pessoas com deficiência física.

Ainda pouco conhecido no Brasil, o aplicativo tem dado passos largos conectando homens e mulheres para encontros e relacionamentos em um espaço dedicado a eles e seus admiradores (os ‘devotees’).

Vida social e acessibilidade

Logo após o acidente, Brendo ficou um longo tempo em casa. Hoje, isso mudou, apesar de preferir bares com música ao vivo, teatro e restaurante. Ele lamenta que a maioria dos locais não são acessíveis para pessoas com deficiência física. 

Além da vida social, gradativamente voltando ao normal, ele também está retornando ao mundo virtual. Recentemente, criou um novo perfil no Instagram e também no Facebook. Brendo tem planos de abrir um canal no YouTube no ano que vem.

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“Se você colocar uma # no Instagram e escrever ‘cadeirante gay’, não terá quase nada, não tem página, não tem vídeo. Foi uma das coisas que eu mais senti falta, alguém direcionado para isso.” 

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Foto: Arquivo pessoal

45,6 milhões de pessoas com deficiência

De acordo com o Censo 2010, existem 45,6 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, ou seja, 24% da população. No mundo, há 1 bilhão de pessoas com deficiência, 1 em cada 7 pessoas, segundo relatório da OMS de 2010, a maior das minorias.

Cerca de 80% das pessoas com deficiência estão nos países em desenvolvimento. Quanto mais desenvolvido o país, melhor são tratadas as pessoas com deficiência. O Brasil é líder em inclusão escolar na América Latina e no mundo.

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Foto: Arquivo pessoal

O país passou de um percentual de 13% de matrículas na educação básica, em 1998, para 79% ,em 2014. Se considerada somente a rede de educação básica pública, o percentual chega a 93%. No ensino superior, de 2004 a 2014, as matrículas de universitários com deficiência aumentaram 518,66%.

(Dados fornecidos pela jornalista Patricia Almeida, membro do Conselho da Down Syndrome International, mentor da International Disability Alliance. Cofundadora do Movimento Down e fundadora da Inclusive – Inclusão e cidadania, Coordenadora Estratégica do Instituto MetaSocial).

Ausência paterna

Criado pela mãe e pela avó, Brendo Martins teve pouco contato com o pai. A mãe e o pai dele se separaram quando ele tinha apenas 1 ano de idade. Os encontros com o pai eram esporádicos, às vezes, a cada 2 anos.  Dependente químico, o pai faleceu por complicações decorrentes da Aids, que havia contraído através de seringas compartilhadas, quando Brendo tinha 18 anos.

A relação com a mãe também teve altos e baixos, principalmente quando ela descobriu a orientação sexual do filho ao mexer por acaso no celular que ele havia dado a ela. Passada essa fase turbulenta, hoje, eles se dão muito bem. Brendo também aguarda se recuperar um pouco mais para iniciar um tratamento em uma clínica de reabilitação especializada, mesmo a paraplegia sendo definitiva.

A vida segue

Brendo relata que por muito pouco não conheceu a morte e, segundo os médicos, foi um milagre ele não ter ficado tetraplégico, levando em consideração a lesão medular, com danos sérios em diversas partes da coluna. Ter sobrevivido, sem ter perdido os movimentos do pescoço para baixo, fez com que ele olhasse a deficiência de outra forma, sem um viés de lamentação, mas de superação.

Muitos diante de uma tragédia costumam se apegar à fé. Brendo revela não acreditar em religião, mas diz que respeita todas elas e que aprecia bastante o Espiritismo. No entanto, ele acredita que todos nós somos energia.

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Foto: Arquivo pessoal

Formado em Marketing, ele pretende cursar um dia Psicologia, mas admite ser bom na área de vendas, revelando que tem muitos talentos à mostrar. Os projetos são muitos, ele não olha para trás, não dá espaço para lamúrias, seu principal foco é evoluir a cada dia, com muitos planos para o futuro, ele segue caminhando mesmo que sobre rodas.

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