“Superei violências e injustiças e hoje luto pelos direitos de milhares de mulheres”

Luiza Batista, 65 anos, líder nacional das trabalhadoras domésticas, do Recife, conta como superou o medo de lidar com seus empregadores e passou a ajudar mulheres em causas trabalhistas.

“Comecei a trabalhar em uma casa de família aos 9 anos. Cuidava do jardim, passava cera no chão e fazia companhia para a filha da patroa. Mas a criança era geniosa e, um dia, me mordeu. Reagi com um tapa nela, e levei uma surra da patroa com um fio de ferro. Minha mãe me tirou de lá assim que me viu.

Aos 12, apesar do medo de sofrer violência de novo, comecei a ajudar na limpeza em outra casa. A experiência foi boa, e segui como doméstica. Mas vivi situações de muita insegurança antes de ter meus direitos garantidos, como nos três meses em que fiquei internada com tuberculose, aos 16. E também aos 18, quando fui demitida por estar grávida.

Já com 20, passei em um processo seletivo para trabalhar como cobradora de ônibus. Deixei minha carteira de trabalho com a empresa no início de 1976, para regularizar a documentação. Mas, ao sofrer uma queda e precisar ir atrás da Previdência no final de 1978, soube que só tinha sido registrada havia seis meses.

PUBLICIDADE

CONTINUE LENDO ABAIXO

“O medo voltou, mas vi que precisava ser firme”

O medo de lidar com quem me empregava voltou, ainda mais porque sabia de casos de violência contra empregados daquela viação, mas percebi que precisava ser firme. Pedi demissão, mas não consegui a reposição do tempo sem registro – era ditadura militar e o sindicato estava interditado.

Mas, dali em diante, nunca mais trabalhei sem carteira assinada. Como me aposentei aos 43 por causa de sequelas de um câncer, voltei a estudar por meio de um projeto para trabalhadoras domésticas que não haviam concluído o ensino fundamental. Nas aulas, conheci integrantes do sindicato e passei a frequentar as reuniões para ajudar na luta pelos direitos da categoria. Hoje, atuo como presidente da Federação Nacional, ao lado de várias mulheres fortes.”

Texto: Romy Aikawa
Foto: Marcus Steinmeyer
Conteúdo publicado originalmente na TODOS #37, em maio de 2021.

PUBLICIDADE

CONTINUE LENDO ABAIXO

Relacionados

Com aulas gratuitas de bodyboard em Aracaju, casal promove a inclusão de pessoas com e sem deficiência

Há uma década, o casal Byron Virgílio dos Santos Silva, 43 anos, e Anne Christiane dos Santos Bastos, 42, de Aracaju, deu início ao...

“Venci o medo, assumi minha sexualidade e me tornei uma inspiração para outras pessoas”

O empresário Márcio Orlandi, 51 anos, de São Paulo, tinha medo de se assumir gay, o que fez com que vivesse "no armário" por...

+ DO CANAL

Artista e fazendeira preserva mata nativa, protege animais e enfrenta machismo nos campos do sul do país

À frente da Fazenda Cerro dos Porongos, nos arredores do Alegrete (RS), Graça Tirelli concilia a carreira de artista plástica com a de produtora...

“O esporte mudou minha vida: me tornei a primeira mulher cadeirante triatleta do Brasil”

Danielle Nobile, 36 anos, paratleta de Riberão Preto (SP), conta como o esporte salvou sua vida e narra o caminho que a fez virar...

Lição de união familiar: “Ao expressar minhas emoções, ajudei meu pai a fazer o mesmo”

Neste depoimento, o jornalista Leonardo da Silva Filomeno, 36, de São Paulo, conta como aprofundou a convivência com o pai depois que passou a...

Com aulas gratuitas de bodyboard em Aracaju, casal promove a inclusão de pessoas com e sem deficiência

Há uma década, o casal Byron Virgílio dos Santos Silva, 43 anos, e Anne Christiane dos Santos Bastos, 42, de Aracaju, deu início ao...

Indígena conquista espaço das mulheres na Amazônia organizando jogos de futebol feminino

Considerada a cidade mais indígena do Brasil, São Gabriel da Cachoeira (AM) fica na região do Alto Rio Negro, a mais de 850 km...

Instagram