Por dentro da corrida de US$ 3 bilhões para derrotar o plástico


Por dentro da corrida de US$ 3 bilhões para derrotar o plástico
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Eu admito que demorei um pouco para entender como a crise ambiental e o aquecimento global são terríveis. Presumi que meus comportamentos ecológicos cotidianos – como a reciclagem e o uso de sacolas reutilizáveis ​​no supermercado – estavam ajudando a reduzir a poluição por plástico e a poluição por carbono.

Mas a estatística e todos os dados levantados pela comunidade científica estão aí, para jogar na nossa cara que um desastre apocalíptico está se aproximando de nós muito mais rápido do que prevíamos anteriormente.

Grande parte dos especialistas acredita que estaremos vivendo em um estado de crise até 2040, com a escassez de alimentos e frequentes desastres naturais como parte da vida cotidiana. As emissões de carbono dos EUA – um dos maiores emissores do planeta – aumentaram 3,4% em 2018, o maior aumento em oito anos, acelerando ainda mais o ritmo das mudanças climáticas. Enquanto isso, bilhões de objetos de plástico (sem exagero, bilhões mesmo!) estão enchendo os oceanos a cada ano, matando a vida marinha e interferindo na cadeia alimentar, causando danos ao fígado de animais e de pessoas.

Diante de uma crise tão grande, minha sacola de compras reutilizável parece subitamente insuficiente, ineficaz. Segundo a Euromonitor, o consumo global de plástico é de cerca de 300 milhões de toneladas por ano, o que significa que cada humano gera cerca de 88 quilos de plástico por ano.

Outro relatório recente descobriu que 25% de todas as coisas que tentamos reciclar acabam em um aterro de qualquer maneira porque está muito contaminada com alimentos e produtos químicos para serem transformados em novos produtos e embalagens.

É necessária uma mudança radical nos nossos estilos de vida individuais, juntamente com um esforço sustentável para pressionar empresas e governos a adotarem políticas mais amigáveis ao meio ambiente, de modo a reverter tal situação.

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Foto: Reprodução/Abeego

Diante de toda esse pessimismo e melancolia, uma nova onda de startups surge para atender à demanda dos consumidores em reduzir a quantidade de plástico de uso único em nossas vidas.

Alguns empreendedores foram estimulados pelas mesmas demandas sobre a iminente crise ambiental para desenvolver alternativas sustentáveis ​​para os produtos do dia a dia, como canudos, sacos Ziploc e plástico filme.

Mas eles também estão aproveitando o nosso atual momento cultural e o desejo por alternativas livres de plástico para desenvolver produtos que são mais ergonômicos e eficazes do que suas contrapartes menos ecológicas. Em vez de se concentrar no apocalipse climático iminente, essas startups estão espalhando uma mensagem positiva sobre como esses produtos podem tornar a vida das pessoas melhor.

“Acho que parte do motivo pelo qual as políticas sustentáveis levaram tanto tempo para decolar é que elas são frequentemente comercializadas sob um ponto de vista realmente negativo”, diz Toni Desrosiers, fundadora do Abeego, um papel de cera de abelha semelhante ao plástico, que serve como plástico e embrulho de presentes e produtos.

O interesse empreendedor para este novo nicho de startups é óbvio: o mercado anual de itens de armazenamento sustentáveis (que substituem o plástico), como envoltórios e bolsas, segundo um relatório da Nielsen, é de US$ 2,9 bilhões. Ao mesmo tempo, essas empresas ainda estão engatinhando – e para ter sucesso, elas terão que enfrentar as marcas que produzem plástico e que estão no mercado há décadas. Mas será que as pessoas podem superar seu vício em plástico?

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Foto: Reprodução/Abeego

O que substituirá o plástico?

Toni Desrosiers acredita que as pessoas estão motivadas a mudarem seu comportamento, concentrando-se no que tornam suas vidas melhor, em vez de apenas evitar o apocalipse climático. “Eu estou tentando criar uma linha de produtos que pode fazer os clientes se sentirem melhor apenas por usá-los”, diz ela.

“Você não precisa se sentir culpado [pela mudança climática], você não precisa fazer uma grande mudança em seu estilo de vida, tudo se trata de uma transição simples. É uma espécie de mudança de rumo sutil, que desloca o consumidor para o caminho sustentável, na minha opinião.”

Há uma quantidade chocante de plástico nas nossas cozinhas. Estamos acostumados a pensar nas coisas óbvias, como sacolas de compras. Mas uma grande parte do que armazenamos – industrializados, carnes, salgadinhos – tudo vem envolto em plástico.

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Foto: Reprodução/Abeego

Eis algo importante a notar: o plástico nunca foi realmente a melhor maneira de armazenar frutas e legumes.

“Quando você coloca sua comida fresca em um ambiente hermético, a comida ainda está emitindo gases naturalmente”, explica Toni. “Mas em um ambiente hermético, o gás fica preso. Acontece que o excesso de condensação na verdade estraga sua comida mais rapidamente do que se você não colocasse em um ambiente hermético: os gases se transformam em gosma, apodrecendo o alimento.”

Toni, que começou sua carreira como nutricionista, começou a pensar nos problemas envolvendo o plástico há cerca de uma década. Na época, sua principal preocupação era o BPA (bisfenol tipo A), um produto químico que muitos plásticos continham, antes de ser considerado prejudicial aos seres humanos, e banido. Sabe-se agora que o BPA é um disruptor hormonal e foi proibido por dezenas de governos na produção de brinquedos e produtos para crianças.

A pesquisadora descobriu que muitos recipientes de armazenamento de plástico nunca foram essencialmente projetados pensando na comida, em primeiro lugar. A Tupperware, por exemplo, foi inventada por um homem chamado Earl Tupper, que queria encontrar um uso para um subproduto industrial chamado Polythylene Slag.

“Ele estava querendo achar utilidade para um produto residual, o que era legal, mas no processo de fazer isso, ele inventou o primeiro conceito de armazenamento de alimentos herméticos”, diz Toni. “Então a conversa continuou rolando sem que ninguém perguntasse se a embalagem hermética dos alimentos era boa para os alimentos.”

Essa realidade levou a pesquisadora a retornar ao laboratório considerando um jeito melhor de armazenar alimentos. Ela determinou que os produtos orgânicos – como frutas, vegetais e queijos – precisam de uma barreira semelhante à da pele para evitar que sequem. Mas essa camada não deve ser hermética, de modo que os gases ainda possam entrar e sair. Toni então desenvolveu um invólucro feito de cera de abelha que faz exatamente isso e começou a vender essa tecnologia a partir da Abeego, uma empresa fundada por ela.

De início, Toni Desrosiers diz que era difícil convencer as pessoas a comprar o produto. As pessoas tinham sido tão ‘doutrinadas’ em relação ao plástico como solução definitiva para o armazenamento de alimentos que poucas delas estavam preocupadas com a poluição gerado por ele. Isso foi mudando rapidamente nos últimos dois a três anos. Hoje em dia, os consumidores estão procurando alternativas ao filme plástico por conta própria e encontrando sua marca online, a Abeego.

“Houve um ponto de virada no mercado”, diz ela. “Não é difícil ter sucesso porque os próprios consumidores estão percebendo que vivemos um estilo de vida desastroso com os plásticos nos últimos 50 anos. É um cruzamento entre perceber que eles têm um relacionamento muito infeliz com seus produtos de plástico, e um momento de despertar isso – afinal de contas – algo realmente ruim está acontecendo com o planeta.”

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Foto: Reprodução/FinalStraw

O canudo de US$ 1,8 milhão

Emma Cohen e Miles Pepper, fundadores da startup de canudos reutilizáveis FinalStraw, notaram um aumento similar na preocupação com a mudança climática e a poluição do plástico.

Afinal, eles experimentaram de Toni Desrosiers a mesma ansiedade sobre a crise ambiental do planeta. Dois anos atrás, Pepper leu uma reportagem sobre como aos canudos descartáveis estavam sendo ignorados do processo de reciclagem de plástico e como seu descarte estava afetando os oceanos, onde estavam sufocando e matando a vida marinha.

“O que me moveu foi um vídeo de uma tartaruga marinha com um canudo preso no nariz”, diz Pepper. “Os canudos são do tamanho perfeito para causar danos reais a uma tartaruga marinha. E ainda assim nós apenas os usamos cegamente e os jogamos fora, indo parar direto no mar.”

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Foto: Reprodução/FinalStraw

Tem havido uma crescente conscientização sobre como os canudos de plástico são prejudiciais para o meio ambiente, atingindo um ápice de interesse no ano passado, quando um vídeo de Pepper se tornou viral.

Uma organização chamada Baleia Solitária lançou uma campanha chamada #StopSucking, que chama a atenção para o problema da poluição plástica e pede que as pessoas façam lobby junto a empresas e governos para proibir os canudos.

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Funcionou: no ano passado, a Califórnia tornou-se o primeiro estado a banir canudos de plástico das mesas, de modo que os clientes só podem receber se pedirem explicitamente por um. Seattle também bane canudos e utensílios de plástico descartáveis. Empresas de grande porte também estão eliminando canudos de plástico, incluindo Starbucks, Marriott e American Airlines.

Cohen e Pepper não acreditam que essas mudanças massivas tenham acontecido porque as próprias empresas desenvolveram uma consciência. Eles acreditam que isso foi estimulado por uma mudança no sentimento público. “A mudança de pensamento no mundo corporativo foi algo sem precedentes”, diz Cohen. “As corporações estão removendo canudos voluntariamente de suas lojas, e isso mostra que eles estão ouvindo atentamente o que os consumidores querem, e assim que começamos a exigir coisas novas, eles vão responder muito rapidamente. Dentro de alguns meses após o clamor, todos, da Starbucks à Ikea e à Alaska Airlines, estavam proibindo canudos.”

As proibições de canudos também apresentaram uma oportunidade de negócio para o mercado de canudos reutilizáveis. Em 2017 Cohen e Pepper acreditavam que tinham uma janela de negócios aberta o suficiente para lançar uma startup que atendesse às necessidades das pessoas e pudessem se destacar inovando no nicho de canudos reutilizáveis.

Neste momento, existem dezenas de empresas que produzem canudos de metal ou de bambu, mas há problemas com a atual experiência reutilizável. Por um lado, carregar um canudo em sua mochila pode ser um pouco nojento, já que ele pode ficar sujo. Também é difícil lembrar de trazê-lo com você.

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Cohen e Pepper decidiram desenvolver um canudo melhor que resolve alguns desses problemas. Eles criaram um canudo de metal dobrável com uma ponta de borracha protetora para evitar ferir o céu da boca.

O que diferencia o FinalStraw dos demais produtos do mercado é que ele vem com uma case que pode ser anexada a um chaveiro, o que torna fácil lembrar. Ele também vem com um rodo desmontável e um rack de secagem dentro da case, facilitando a limpeza de tudo.

Cohen diz que cada parte do produto é projetada para torná-lo conveniente e seguro de usar, para que as pessoas realmente o usem. “Há muitos relatos de canudos de vidro, bambu ou metal causando lesões na boca, então esses são medos muito reais”, diz ela. “Queríamos projetar algo que resolve esses problemas.”

O FinalStraw foi lançado primeiro no Kickstarter, um site de financiamento coletivo (vaquinha online), onde levantou US$ 1.394.878 (R$ 5 milhões) com o apoio de mais de 38.000 apoiadores. E assim a startup prosperou.

Há muitos consumidores pró-ecológicos à procura de uma alternativa ao canudo de plástico, mas a demanda pelo produto cresceu exponencialmente à medida que os legisladores e as próprias empresas baniram os canudos.

E enquanto eles servem para um propósito muito prático quando as pessoas saem para comer, os donos da FinalStraw estão igualmente empolgados com o fato de que eles são capazes de contribuir para um debate de ideias em grande escala para pressionar por mais sustentabilidade.

“Eu acho que o problema da poluição dos canudos é uma boa porta para falar sobre os nossos hábitos de desperdício quando se trata de plástico de uso único”, diz Cohen. “Também temos voz para incentivar outras empresas e startups que estão trabalhando para reduzir os gases de efeito estufa.”

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Foto: Reprodução/Stasher

A bolsa reutilizável que você pode usar para cozinhar

Enquanto os fundadores da FinalStraw estão revolucionando o conceito (e o mercado) dos canudos reutilizáveis, a empreendedora Kat Nouri está tentando encontrar uma solução para o problema das sacolas de plástico descartáveis.

Essas sacolas de uso único entraram no mercado quando a Dow Chemical Company as comercializou sob a marca Ziploc, a partir de 1968, como uma maneira conveniente de armazenar alimentos e descartar as embalagens originais. A maioria dos programas de reciclagem convencionais não aceita esses sacos de plástico.

Há dois anos, Nouri desenvolveu a Stasher, uma embalagem impermeável que parece idêntica a do sanduíche descartável e dos lanches que usamos em casa, mas é feita de silicone não-tóxico.

A Stasher está agora disponíveis online, bem como em muitas grandes lojas, incluindo a Target. O site da startup apresenta imagens das sacolas sendo usadas de várias maneiras, desde o armazenamento e congelamento de alimentos, até enchê-las com produtos de higiene pessoal para viagem, de modo a facilitar as verificações de segurança, já que elas são transparentes. “Nós desenvolvemos essa sacola impermeável da mesma forma e tamanho que as pessoas se acostumaram a usar porque pensamos que seria mais fácil para elas fazer a transição de sacolas descartáveis ​​para reutilizáveis”, diz ela.

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Foto: Reprodução/Stasher

Enquanto desenvolvia os produtos, Nouri percebeu que uma bolsa de silicone tinha muitas vantagens que o plástico não trazia.

Por um lado, você pode facilmente colocá-las na máquina lava-louças. Elas também são resistentes ao calor, por isso é possível assar e ferver alimentos com os sacos.

No site da Stasher, existem receitas que explicam como marinar frangos e peixes e, em seguida, como colocar os pacotes diretamente no forno, no microondas ou no Instant Pot. Você pode usar os sacos para fazer pipoca no microondas, eliminando a necessidade de utilizar sacos descartáveis ​​de pipoca.

Tem receita até para preparar o peru de Ação de Graças usando uma bolsa Stasher. Elas agora vêm em várias cores: algumas têm desenhos bonitos para agradar as crianças que as levam para a escola, entre outros modelos.

“Existe a ideia de que os produtos ecologicamente corretos são, de alguma forma, piores que os produtos menos sustentáveis”, diz Nouri. “Mas estamos provando que isso não é verdade. Se você repensar um produto a partir do zero, poderá encontrar maneiras de tornar o produto ainda mais funcional, eficaz e ainda mais divertido de usar.”

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Foto: Reprodução/Stasher

Seus comportamentos são um sinal

Essas startups estão facilitando a redução da quantidade de plástico em nossas vidas. Isso satisfaz vários objetivos.

São necessários combustíveis fósseis não-renováveis ​​para a fabricação de plásticos, que contribuem para nossa pegada de carbono. Isso é péssimo. Reduzir nosso consumo pessoal de plástico significa que menos plástico está acabando em aterros sanitários, lixões e oceanos, onde ele se fragmentará em partículas menores, mas nunca irá se decompor.

Mas também há alguma tensão nos modelos de negócios. Crescer como um negócio significa vender mais produtos, o que inerentemente significa criar mais resíduos, seja na forma de embalagem, seja na remessa de mercadorias em toda a cadeia de suprimentos.

Atualmente, esses negócios ainda são muito pequenos, especialmente se comparados aos grandes conglomerados com os quais estão concorrendo. À medida que crescem, eles também precisam ter cuidado para não cair em novas formas de desperdício e excesso, incentivando os consumidores a comprar mais produtos do que precisam, como comprar novos canudos e sacos de silicone a cada temporada em cores diferentes.

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Por enquanto, essas empresas têm um papel a desempenhar para nos ajudar a abandonar nosso vício no plástico de uso único. Embora seja fácil acreditar que nossas próprias ações individuais são pouco quando comparadas com as enormes quantidades de poluição de carbono e plástico sendo produzidas pelas empresas todos os dias, os cientistas dizem que esses comportamentos realmente importam, particularmente porque outros provavelmente seguirão nossos passos.

Há evidências de que as pessoas são mais propensas a sentir pressão para mudar seu comportamento quando observam outras fazendo a coisa certa. Cada vez mais pessoas estão vivendo estilos de vida de conservação conspícua, um termo cunhado por economistas para se referir a indivíduos que participam de comportamentos ecológicos para sinalizar o quão esclarecidos e progressistas são, em oposição ao consumo conspícuo. Através desses atos visíveis de vida sustentável, podemos influenciar nossos filhos, famílias, vizinhos e amigos a fazer o mesmo, o que, em conjunto, pode reduzir drasticamente a quantidade de poluição.

Mas devemos também expor nossas escolhas e reflexões através de nossas ações. O ativismo funciona: a compra de produtos de marcas ecologicamente corretas afirma a noção de que existe uma demanda por produtos sustentáveis. Isso pode mudar o mercado, levando as empresas maiores a repensar suas linhas de produtos e processos de fabricação.

“Nossa missão é reduzir o desperdício de plástico por meio do consumo consciente”, diz Miles Pepper, do FinalStraw. “O que descobrimos é que há pessoas suficientes por aí que acreditam no que estamos fazendo para apoiar uma empresa. E com empresas suficientes como a nossa, não há dúvida de que as grandes corporações prestarão atenção e perceberão que o cliente está procurando soluções superiores e produtos ecologicamente corretos.”

Por Elizabeth Segran, Ph.D, escritora, empreendedora e nutricionista, com artigos publicados na The Atlantic, The New Republic, Foreign Policy, Foreign Affairs e The Nation.

Matéria originalmente publicada em inglês no Fast Company. Traduzida e adaptada para melhor compreensão.

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