Um texto para você refletir sobre a campanha #somostodosmacacos

Por favor, tirem uns minutos para ler esse texto genial do Felipe Politano sobre a “campanha” anti-racismo #somostodosmacacos:

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Nem ia comentar dessa pataquada sem propósito de‪#‎SomosTodosMacacos‬ aqui, primeiro por ser publicitário e saber que buzz é tudo o que os criadores dessa bizarrice tem pra por na fatura na hora de passar a régua e fechar a conta, aquela coisa de não bater palma pra maluco dançar, vocês sabem. E segundo porque me dá certo receio ter que discutir um tema tão anacrônico… fico com medo de, sei lá, dar corda a essa coisa de volta no tempo e de repente até novembro já estarmos andando a cavalo, comprando anáguas, enfim.

Mas voltando ao que deveria ser 2014: estava aqui passeando pela timeline na madruga boladona e acabei vendo não UMA, não DUAS, mas uma boa dúzia de pessoas que estão agora apoiando a não-causa do boleiro mas que, surprise surprise, nesse curto ano mal começado já jogaram suas próprias bananas de opinião por aí – com absurdos mais ou menos sutis contra os direitos humanos dos imigrantes haitianos, ou a favor dos justiceiros amarrando marginais em postes; contra a escolha supostamente política de uma negra como mais bonita do mundo, ou a favor das piadas maldosas com a nova Globeleza; apenas achando super normal toda essa coisa de mendigo gato, tour de gringo na favela, Tinder da Suécia, ou silenciosamente validando bizarrice que o valha. Isso sem falar dos outros tantos que, no muito distante 2013, achavam que os shoppings tinham sim o direito de decidir quem tinha “cara de rolezeiro” e deveria ser preventivamente impedido de entrar em espaço privado de interesse público. Ou até mesmo gente que faz de conta que não entende a diferença entre igualdade e justiça, ou que finge não ver o privilégio social inerente a nascer branco, hétero, cis, sem nenhuma deficiência, talvez numa religião amplamente aceita – e que mesmo assim posta foto com banana, mas se nega a discutir cotas e medidas afirmativas pra quem nasceu sem tanta “sorte”.

A real é que a maior parte de nós nunca vai conseguir escrever um “somos-todos-qualquer-coisa” sem cair no ridículo da ilegitimidade, por pura falta de empatia. Não pelo “qualquer-coisa” da causa; mas pelo “todos”, que nunca existiu. Vejo uma campanha abraçada por gente especial, única, que se sente lisonjeiramente mais especial e única por vestir uma camiseta ou postar uma foto se dizendo igual a todos como se isso fosse em si uma prova de altruísmo – aliás, pior, se dizendo igual a uma minoria historicamente massacrada, e respondendo em nome dela a um preconceito que não está restrito aos estádios e do qual não se tem a mais rasa idéia. Dizer que “somos todos tipo assim negros” é um desdobramento natural do “tenho até amigos que são”, uma tampa de bueiro da mesma família do “não tenho preconceito, mas”. São discursos plásticos que obstruem diálogos reais, e tiram do grupo dominante a responsabilidade real com o todo. E nos tempos instagrâmicos, quando não só os publicitários mas também os usuários possuem métricas muito precisas de buzz e awareness, o apelo de uma hashtag, um meme ou um pretexto pra selfie ofusca facilmente a necessidade de um debate com todas as letras. Nessa medida, a campanha do #SomosTodosMacacos é não apenas um embuste, mas uma sacanagem.

Veja bem: um dos mecanismos sociais mais cruéis é a apropriação, por parte do opressor, de elementos culturais e simbólicos do oprimido – sem para isso pagar o preço de viver na pele a opressão. Quando a elite (e por elite não estou falando de FHC nem da Fátima Bernardes, mas de você que tem privilégios automáticos por ter nascido onde nasceu, com sua cor, seu gênero, sua orientação e tendo onde cair morto) resolve usar os códigos culturais do pobre, do preto, do gay ou do nordestino para se entreter, ela exerce inadvertidamente o seu poder de opressor – já que transitar seguramente por esses códigos sem perder seus privilégios concedidos é demonstração do domínio do seu espaço social “natural”. Acontece o tempo todo na música, na televisão, na gíria, na moda, na vida, mas não deixa de ser sintomático.

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Pode ficar à vontade e tomar um tempinho pra pensar sobre isso – aliás, o tempo que for até descobrir por conta própria a diferença entre se sentir mal pela sorte na loteria divina e se sentir responsável por usar seus privilégios em benefício de quem não os tem, simplesmente porque o mérito de tê-los ou inexiste ou não é seu. É esse insight que, felizmente, permite a algumas pessoas entender porque grupos dominantes não precisam de “orgulho” e maiorias não tem como “sofrer preconceito”.

Ao assentir com a campanha publicitária das (dos?) bananas do Huck e do Neymar, o público (por vezes sem querer, que haja o benefício da dúvida) se coloca na mesma posição de apropriação opressora do humoristão que pinta o rosto de preto para interpretar uma mendiga por um salário de muitos dígitos, ou do galã hétero que caricatura um gay afetado do jeito que ele mesmo diz, em entrevista, que não suporta na vida real. Caso não seja óbvio: isso é tudo muito real e muito escroto. Mas, passado o hype da campanha (ou o papel na emissora), todo o ônus da discriminação continuará exatamente onde sempre esteve: na menininha que acha natural o nome do seu tipo de cabelo ser “ruim”, no garoto que é confundido com o marginal “porque é tudo igual”…

Mas onde o #SomosTodosMacacos dá um passo além rumo ao longe-demais é ao se apoderar da VOZ do oprimido. Porque é somente dele, daquele a quem é infligida a opressão, o direito de responder à agressão com indiferença ou chacota ou como queira, morando na confiança inesperada o tom de protesto. A atitude de “pode me chamar de macaco” só é catártica pra ele que vive o peso desse preconceito, todos os dias. Essa mesma atitude, estampada em posts e selfies e t-shirts, não só se esvazia e minimiza uma luta legítima, como ainda ilustra carmenmirandamente o exercício da apropriação opressora. Não é solidariedade, é “calma-tá-tudo-bem-agora”. E não está.

A você que chegou até aqui: muito obrigado por ter separado tantos minutos para a opinião de uma pessoa só. Não pretendo, aqui, falar em nome de ninguém – e juro que não queria ter sido tão prolixo e chato, mas é justamente essa indisposição coletiva pra falar à exaustão que permite a propagação de meios-discursos rasteiros. E ó, garanto que isso aqui ainda é muito pouco perto de tudo que ainda precisa ser dito e pensado – de preferência não nessa ordem – sobre o assunto. Porque essa ilusão coletiva de que a miscigenação criou um Brasil sem racismo joga bananas gratuitas por aí diariamente, ainda que sem direito a hashtag.

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