Após dias de confrontos violentos, pianista leva noite de paz à Turquia


Após dias de confrontos violentos, pianista leva noite de paz à Turquia 1
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Após semanas de manifestações e confrontos violentos com a polícia, os manifestantes turcos tiveram uma noite de paz e emoção graças ao pianista Davide Martello. No último dia 12 de junho, o músico italiano desembarcou seu piano de cauda no parque Gezi, localizado no distrito de Taksim, e em meio a milhares de pessoas em clima de protestos e a policiais cercando o local ele começou a tocar seu instrumento. Foram 14 horas de música. E, enquanto ele tocava, não houve violência, confronto ou atos de vandalismo. Todos foram envolvidos pela mágica de sua música e a Turquia teve uma noite de paz.

Em uma entrevista, Davide comentou o que presenciou:

Não houve ataques, não atiraram pedras, nada. Isso é incrível. Há dois dias atrás tiveram tumultos violentos e brutalidade aqui. As pessoas me agradeceram, porque durante o concerto eles encontraram paz.

Abaixo, veja o relato do jornalista português Paulo Moura que estava lá nessa noite:

“Tinha começado ontem à noite: um italiano levou o seu piano de cauda para o meio da praça Taksim. Era pouco antes da meia-noite, a hora em que se esperava o ataque derradeiro da polícia ao parque Gezi. Contingentes da polícia de intervenção posicionavam-se dos dois lados da praça – cercando a estátua de Ataturk e em frente ao Centro Cultural. No meio, sem ter para onde fugir, concentrava-se a multidão.

E de repente começou. O italiano, Davide Martello, que vive na Alemanha e veio de lá com um piano de cauda no carro, atacou os acordes de Imagine. Havia holofotes apontando para ele e um sistema de amplificação sonora.

Em frente à polícia, armada de escudos e capacetes, Martello, de máscara de gás ao pescoço, interpretou Let it Be, e várias sonatas. A polícia ia atacar a qualquer momento, mas, em vez do gás lacrimogéneo, o som do piano enchia a praça.

Foi assim durante horas. E a violência não começou.

Entusiasmado com o êxito da receita, Martello repetiu-a hoje. Desta vez, colocou o piano a poucos metros dos polícias, junto à estátua. A multidão sentou-se à sua volta, e ele tocou, toda a noite. Juntou-se-lhe uma cantora de ópera.

Ver as cabeças dos polícias encaixadas nos capacetes com um sorriso embevecido enquanto os dois jovens músicos tocavam O Sole Mio para uma multidão de manifestantes foi das cenas mais extraordinárias que alguma vez vi. Aqueles polícias que pouco antes tinham mandado 5 mil pessoas para o hospital, e que apenas esperavam a ordem de atacar de novo.

Por alguma razão misteriosa, ninguém acreditava que o ataque começasse no meio de uma peça musical. Por isso, imitando Sherazade, o segredo era não parar.

Já vim para o hotel, mas ainda os ouço lá na praça a cantar. O que vale é que aos italianos nunca falta repertório.”

 

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Relato via publico.pt.

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