Não adianta chorar sobre o leite derramado, melhor chamar o gato


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Era a terceira caixa de bombons que chegava à mesa de Ana Tereza nas duas últimas semanas. O bilhetinho era quase sempre o mesmo, uma letra graúda falando de amor e esperança, que invariavelmente ganhava desprezo de sua parte. Não lhe atingiam o coração também os pequenos presentes do moço, os convites para almoço e jantar. Ana Tereza se recusava a encontrar qualquer qualidade mais palpitante naquele homem de belo sorriso que há dois meses declarava intensamente sua paixão de todas as formas possíveis. Os motivos para tal nariz empinado eram muitos, segundo sua opinião: ele tinha sotaque do interior, não se vestia bem, era sovina, e, o pior, suava muito. A melhor amiga ainda sugeriu que Tereza desse uma chance para ele. Mas ela não quis nem saber. Mais três semanas se passaram e o cavalheiro recuou, em silêncio. No mês seguinte, apareceu ao lado de uma das mulheres mais bonitas do escritório. Os dois estavam namorando.
Ana tomou-se de um arrependimento mortal. Afinal, até que ele não era tão ruim assim (lembrou-se logo do sorriso). Também tinha chances de promoção, bom profissional que era. E deu para cantar em italiano numa voz afinadíssima perto da outra. Resultado: um mês depois, ela estava perdidamente apaixonada pelo ser anteriormente desprezível e arrasada. A amiga nem podia mais tocar no assunto.
Essa historinha (sem sobrenomes, por favor) foi contada na redação quando se discutia o tema da edição que você lê agora. Ela fala de forma singela dos arrependimentos cotidianos e reais da vida. Todos nós nos lembramos de coisas parecidas, um hobby adorado que foi abandonado sem motivo, uma viagem muito desejada que não aconteceu ou um afeto que não foi expressado no seu tempo justo.

Como a maioria daquilo de que nos arrependemos, essas histórias não resistem a uma análise mais apurada. “Muitos são falsos arrependimentos, pois toda escolha inclui uma perda. Perde-se de um lado, mas ganha-se de outro. Lamenta-se a perda sem considerar o ganho que, inclusive, pode não ser imediato nem aparente, mas que depois revela-se muito maior”, diz a psicóloga paulista Ineide Soares, especialista em terapia familiar e bioenergética. E, se o que perdemos for melhor do que o que ganhamos, isso também faz parte do jogo. Tudo bem, de vez em quando acontece, é normal. “O problema é que tem gente que odeia perder. Importa-se muito com que o outro tem e conseguiu, mesmo que não seja de seu interesse pessoal real”, diz Ineide. Também há os que desejam tudo para si, sem querer abrir mão de nada. “Querem ganhar sempre e não se arrepender nunca de nenhuma decisão. Ora, isso é pouco humano, uma fantasia infantil de onipotência.”

São as más experiências e as perdas, quando admitidas plenamente e saboreadas em seu gosto amargo, que nos ensinam a viver. Elas nos tornam mais humanos, falíveis, flexíveis. É desse ponto frágil que podemos experimentar a compaixão por outros seres que perdem, e que sofrem as dores do esgarçamento da alma por isso. Conhecemos o gosto de sua aflição e podemos ser solidários com conhecimento de causa. O ganho dessa fraternidade em humanidade, dessa possibilidade de compaixão pelo outro com base em nossa própria experiência, já seria suficiente para absolver muitos de nossos erros e incompreensões do passado.

Nada de julgamentos

Outro erro frequente: não se pode julgar uma decisão do passado com os olhos do presente. O que foi decidido baseou-se no nível de consciência que se tinha na ocasião. Todos nós, se tivéssemos o olhar que temos hoje de alguns desvios de rota que fizemos no passado, seria pouco provável que nos perdêssemos neles. Mas nos esquecemos disso, geralmente por causa do peso da culpa. “A culpa e o perfeccionismo são as duas piores doenças da alma”, diz o monge inglês dom Laurence Freeman, presidente da Comunidade Mundial de Meditação Cristã. Em outras palavras, nós nos cobramos por uma perfeição que não existe na espécie humana. “A palavra arrependimento, em grego, é metanoia, que quer dizer apenas `mudança de direção¿. Erramos, admitimos o erro, procuramos remediá-lo e mudamos de caminho. Só isso”, diz dom Laurence. É um longo aprendizado aprender a lidar com o erro de uma maneira firme, mas sem peso. Dom Laurence aconselha a prática de meditação e momentos de silêncio para acalmar o espírito e nos descondicionar da culpa.

Médica geriatra do setor de atendimento de doentes terminais do Hospital das Clínicas e uma das criadoras do serviço de cuidados paliativos do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, Ana Cláudia Arantes já viu muitos casos em que a culpa e o arrependimento paralisaram processos de aceitação e pacificação diante da morte. Dona Josefa, sua querida paciente de 92 anos, por exemplo, andava inquieta com seu passado e tinha medo de enfrentar “o julgamento de Deus”. Foi preciso uma longa conversa para que a anciã pudesse se sentir digna do perdão divino. Mesmo assim, esse reconhecimento não foi imediato e só aconteceu após uma profunda reflexão. “Alguns dias depois, dona Josefa me disse: “Sabe, doutora, existem duas coisas na vida que mostram a justiça de Deus. Uma é a chuva. Chove para todos, em qualquer lugar, a qualquer hora. A outra é a morte”. E, se o Criador era tão justo com as principais coisas da vida, porque não seria também na distribuição do seu perdão? Dona Josefa morreu após alguns dias com o coração aliviado. “Acordei no meio da madrugada com o barulho da chuva. E imediatamente pensei: dona Josefa morreu agora, junto com a chuva. Telefonei para o hospital e me confirmaram a morte dela.”

Os cinco maiores arrependimentos

Uma enfermeira americana, Bronnie Ware, escreveu um livro que poderia ser traduzido como “Os cinco principais arrependimentos dos pacientes terminais” (The Five Tops Regrets of Dying). “A última impressão da vida é a que fica marcada no espírito. Seria muito bom que ela não fosse de pesar e arrependimento”, diz ela. Por isso, nesse momento é importante não julgar a vida apenas pelo viés do prazer, porque sempre vamos ter a sensação de que não nos divertimos o suficiente e não a aproveitamos totalmente. “Na verdade, a vida é muito curta, e o tempo que sentimos que vivemos com mais intensidade e prazer é pouco mesmo. A maior parte dela transcorre no tempo ordinário, comum”, diz a médica geriatra Ana Cláudia. Esse é o normal. “Viver é fazer escolhas, e algumas delas incluem abrir mão do prazer imediato. Para ser amados e aceitos, ou por amar mais aos outros que a nós mesmos, muitas vezes fazemos grandes sacrifícios”, complementa.

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A questão real é que muitas vezes isso é feito condicionalmente, como uma espécie de troca. Nós nos sacrificamos pelos outros, mas achamos que eles nos devem na mesma proporção. Quando não há reconhecimento e mesmo o sacrifício não é aceito, é comum a pessoa se arrepender amargamente. Se um pai lutou para colocar o filho na faculdade, que decidiu sair no quarto ano de engenharia para ser mágico, ele pode sentir um grande arrependimento perto da morte. “Não podemos decidir pelos outros. Eles têm todo o direito de não concordar com aquilo que julgamos ser bom para eles”, diz com clareza Ana Cláudia. Por isso, ser mais fiel a si mesmo e só fazer sacrifícios de forma incondicional pode ser um bom norte para não se lamentar mais tarde. Aliás, o desejo de viver uma vida mais verdadeira e não a vida que outros esperam de nós é o primeiro grande arrependimento dos cinco elencados pela enfermeira americana.

Os outros quatro arrependimentos (“eu gostaria de não ter trabalhado tanto”, “eu queria ter tido mais coragem para expressar meus sentimentos”, “eu desejaria ter tido mais contato com meus amigos” e “eu gostaria de ter me deixado ser mais feliz”) são outras boas indicações de mudanças que podem ser feitas durante a vida, sem precisar chegar ao seu fim para se arrepender. “A morte é boa conselheira, mas podemos mudar sem a necessidade de estarmos diante dela”, diz a médica Ana Cláudia. “Podemos procurar um trabalho que nos satisfaça mais, para não sentir que perdemos tanto tempo sem ter prazer. Ou estar mais perto dos amigos, expressar mais sentimentos. Uma pessoa próxima à morte pode se tornar muito mais doce e carinhosa, mas é possível fazer isso na vida antes com quem amamos, sem ter de esperar o desenlace”, comenta a médica.

O últimos dos quatro, a vontade de ter se deixado ser mais feliz, resume um pouco todos os outros. “Acredito que cada um venha nessa vida para cumprir um papel. É importante saber qual é sua missão no mundo, nas suas relações, e tentar realizá-la com todas as suas forças” afirma a médica. “Acho que as pessoas que mais se arrependem são as que tiveram a chance de mudar e não mudaram”, finaliza.

Montaigne e a arte de viver

Ele era um magistrado na cidade francesa de Bordeaux, tinha um castelo e, na sua propriedade, muitos vinhedos. Mas o que um rico burguês que nasceu há 480 anos poderia dizer ao homem atual? Tudo. Ao contrário dos escritores de sua época, Montaigne era muito moderno. Os Ensaios, uma obra que escreveu durante 20 anos, são uma espécie de blog do século 16 e falam essencialmente sobre a arte de viver. Em seus escritos se pode reconhecer os mesmos conflitos e reflexões que nos habitam hoje. E sua extensa obra responde a uma só pergunta: como viver de maneira a não se arrepender depois? Michel Montaigne nos ensina a ter uma existência significativa, digna e correta sem perder o prazer de viver. Tudo que mais queremos na vida. No livro Como Viver, uma biografia criativa e bem-humorada de Montaigne, a autora inglesa Sarah Bakewell responde a essa pergunta com 20 tentativas de respostas baseadas no que ele escreveu. Elas podem incluir, por exemplo, abrir mão do controle, ser comum e imperfeito, fazer algo que nunca tenha feito, ser mais sociável com os amigos, sobreviver ao amor e às perdas, recorrer a pequenos truques, fazer um bom trabalho mas nem tanto, refletir sobre tudo mas não se arrepender de nada.

Para Montaigne, a existência nos conduz pela mão e não precisamos nos procupar com nada. Segundo ele, a vida nos encaminha para um “declive suave praticamente imperceptível, aos pouquinhos”. A vida pode ser boa, divertida e natural, nos diz ele. Comece então com Como Viver, esse incrível manual de vida.

Com o calor da paixão

Vinicius de Moraes, o poeta, dizia que para se viver um grande amor é preciso ter “a insensatez de um coração constantemente apaixonado”. Porque a vida embebida na paixão tem outro gosto: as manhãs se revestem de neblina e encanto, os horizontes de cores e esperanças, o peito de luz e gozo. Mas qual seria a receita para se experimentar mais vezes esse gosto único? Num livro de crônicas e poesias, Vinicius dá sua fórmula mágica: fidelidade absoluta, cavalheirismo, dedicação e entrega. O poeta carioca, que nunca separou sua existência de sua poesia, compreendia que o coração aberto, a sensibilidade à flor da pele, a delicadeza e a noção exata da preciosidade do amor eram pré-requisitos essenciais para esse encantamento. Pois o mesmo vale para a vida. Ela precisa dessa paixão por todos seus aspectos para se tornar inesquecível, palpitante, intensa.

Para isso, há de se aceitá-la integralmente. Reconhecer que nela é tão preciosa a lágrima e a angústia quanto o sorriso. Essa atitude é fundamental para um novo apaixonar-se, pois o amor exige a exposição ao sofrimento e uma coragem. Sem tudo aceitar e sem encantar-se com tudo, corre-se o risco de não saborear a vida. “A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro”, nos sussurra Vinicius nas páginas do livro Para Viver um Grande Amor (Companhia das Letras). “O maior solitário é o que tem medo de amar, de ferir e ferir-se (…). Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno.” Melancólica imagem de quem tem medo.

Amar a vida e não se arrepender é dizer um sim incondicional a exatamente como ela é: com sua dose de beleza, natureza e magia tanto quanto sua violência, maldade e angústia. E, se um dia nos arrependermos de nossa ousadia, ilusão e engano, também não há problema. O mundo é assim. Está tudo certo.

 

O post acima é uma reprodução na íntegra do texto que Liane Alves escreveu para a revista Vida Simples, e que foi devidamente autorizado por ela para reproduzirmos aqui.

A frase que dá título ao post é de autoria de Aparecido Silva.

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